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A contagem corrigida de reticulócitos

Prof. Dr. Paulo Cesar Naoum
biomédico, professor titular pela Unesp,
diretor da Academia de Ciência e Tecnologia e ocupa a
cadeira 33 da ARLC. Autor do livro Em nome do DNA,
Livraria Médica Paulista, 2010.

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A contagem de reticulócitos, cujo resultado é expresso em porcentagem comparativa ao número de eritrócitos, indica de forma indireta o grau de produtividade dos eritrócitos pela medula óssea, a eritropoiese. Seus valores de normalidades (0,5 a 2,0%) independem do sexo e da idade. Nas deficiências de um ou mais fatores da eritropoiese, por exemplo, de ferro, pode ocorrer anemia hipoproliferativa e, consequentemente, a contagem de reticulócitos se apresenta diminuída em relação à contagem normal, ou seja, abaixo de 0,5%.
Por outro lado, quando a eritropoiese está estimulada, tal como ocorre nas anemias hemolíticas, a contagem de reticulócitos se apresenta aumentada, ou seja, acima de 2,0%. Nos dois exemplos acima citados, o médico do paciente com a anemia hipoproliferativa ou com a anemia hemolítica procura trata-­‐lo para normalizar a eritropoiese e um dos parâmetros que ele poderá usar é a contagem de reticulócitos.
Entretanto, há a contagem corrigida de reticulócitos (CCR) que torna a avaliação da eritropoiese mais específica, pois considera para seu resultado o valor do hematócrito, através da seguinte fórmula CCR= % de Reticulócitos X % do Hematócrito do(a) paciente/ Hematócrito padrão para sexo e idade (o valor padrão de hematócrito para mulheres adultas, e adolescentes e crianças de ambos sexos, é 40%, enquanto que para homens adultos este valor é 45%. Dessa forma, apresentarei um exemplo para tornar fácil o entendimento da CCR.
Uma mulher adulta com anemia hemolítica apresentou-­‐se em seu hemograma de diagnóstico com hematócrito de 25% e contagem de reticulócitos de 8,0%, portanto com reticulocitose. O cálculo da CCR do presente exemplo resultou em 5,0% (CCR= 8X25/40). Esta mesma mulher foi tratada para conter a hemólise e 20 dias depois o médico solicitou o hemograma, com contagem porcentual de reticulócito e contagem corrigida de reticulócito para avaliar o seu procedimento. Os resultados desta ocasião mostraram que o hematócrito aumentou para 30%, a contagem porcentual de reticulócitos ainda estava elevada (2.7%), mas a contagem corrigida de reticulócitos mostrou-se normal (2,0%).
Portanto, os reticulócitos estão aumentados ou normais? Como explicar esta situação? A maior parte dos médicos estão acostumados a avaliarem a contagem porcentual de reticulócitos e sabem como interpreta-­‐la. Outros médicos, entretanto, querendo mais especificidade interpretativa do desenvolvimento da eritropoiese, preferem a contagem corrigida de reticulócitos. O exemplo acima contempla as duas opções. Para os médicos que preferem somente a contagem porcentual de reticulócitos a interpretação consideraria que o procedimento terapêutico foi correto, pois a anemia passou a ser controlada uma vez que ocorreu a elevação do hematócrito, e a eritropoiese deixou de estar acelerada (reticulócitos de 8% caiu para 2,7% após o tratamento, e certamente continuará diminuindo até atingir a sua normalidade).
Enquanto que para os médicos que preferem avaliações mais detalhadas consideraria também que o procedimento terapêutico foi correto, pois a grau de anemia diminuiu e a eritropoiese fundamentada na produção de reticulócitos normalizou, pois sua contagem entrou na faixa de normalidade. As duas interpretações estão corretas e o uso de uma ou de outra forma de avaliação de reticulócitos passa a ser de escolha exclusivamente do médico.

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