Colunistas

Os valores padrões na tecnologia automatizada

Prof. Dr. Paulo Cesar Naoum
biomédico, professor titular pela Unesp,
diretor da Academia de Ciência e Tecnologia
e ocupa a cadeira 33 da ARLC.
Autor do livro Em nome do DNA, Livraria
Médica Paulista, 2010.

[email protected]

 

Recentemente recebi um pedido de socorro de um colega da Bahia. O laboratório em que ele trabalha adquiriu um equipamento muito sofisticado para contagens de células do sangue. Enfim, queria saber se os valores padrões do hemograma continuariam o mesmo ou se deveria proceder uma nova padronização para a maquina dos sonhos. Por mais incrível que possa parecer esta dúvida tem sido comum, e por várias razões.
A principal destas se deve ao fato de muitos vendedores de equipamentos automatizados criarem ilusões mágicas da capacidade tecnológica do aparelho. A transfiguração dos resultados emitidos por alguns equipamentos de recentes gerações tecnológicas é de tal ordem que o técnico de laboratório imagina que seus problemas estão eternamente resolvidos. Porém, quando os colegas que adquiriram os novos equipamentos verificam que os valores da glicose, do colesterol total ou do hemograma apresentam resultados similares ao velho, bom e fiel equipamento, agora deixado de lado, há um misto de frustação e até de traição em relação ao aparelho amigo de tantos anos. Alguns colegas chegam a verter lágrimas.
Do antigo equipamento escutavam sons de funcionamentos das diversas etapas das execuções eletrônicas e mecânicas, estes moderníssimo, entretanto, só expressam ruídos quase inaudíveis. Permitam-me uma analogia; se Airton Sena voltasse da eternidade para pilotar os atuais carros da fórmula-1, que são completamente automatizados, certamente se frustraria. Sena distinguia os diferentes sons dos motores de seus carros e os ajustava para mais uma vitória. Mas Sena, infelizmente, é tema da nostalgia!
Assim, muitos colegas que adquiriram os mais recentes equipamentos automatizados, informatizados, conectados, etc., imaginam sempre um novo cenário. Assim, almejam por novas tabelas padrões dos exames analisados pelo moderno equipamento para diferenciar do concorrente, notadamente se ele ainda continua com aquela “velha” máquina de dez anos de uso.
Nós, pesquisadores, que ao longo de nossas vidas profissionais propusemos novas técnicas para diferenciarem determinadas patologias do sangue, padronizando-as através de fórmulas físico-químicas estabelecidas muitos anos atrás, assistimos com preocupação a propagação de gerações que se recusam a raciocinarem. É obvio que quando bem comandados, os novos equipamentos mostram mais rapidez de análises, discretos graus de melhora nas sensibilidades e reprodutibilidade de resultados. Mas são apenas números. A interpretação, esta sim, diferencia a qualidade do laboratório e de seus profissionais.

Mostre mais

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close