Colunistas

“Um Tempo Como Aquele”

Por que não evocá-lo?


Ligia Maria Mussolino Camargo
Sócia da empresa Décio Camargo Ltda, professora de Língua Portuguesa.
Ocupa a cadeira nº 24 da Academia
Santarritense de Letras

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Era uma vez um tempo feliz, ou melhor, foi um tempo feliz, aquele em que nós, crianças dos anos de 1950 e 1960 vivemos.
As cidades brasileiras eram, em sua maioria, calmas e avançavam para o progresso, sem pressa e sem exageros. Santa Rita era, até certo ponto é, um recanto de paz e sonhos.
Nós crianças éramos felizes e não sabíamos. O tempo passava devagar, será que os ponteiros do relógio corriam menos? Os meios de comunicação evoluíam timidamente. Em 1960 é inaugurado em Santa Rita o Serviço Telefônico Automático. Em 1950 é trazida para o Brasil a primeira televisão, pelas mãos do empresário Assis Chateaubriand, e nesse mesmo ano é inaugurada em São Paulo a “TV Tupi”. Em Santa Rita, dos anos 1950 e 1960, existiam três ou quatro aparelhos de televisão. Era uma alegria imensurável quando podíamos assistir a um programa de televisão, na casa de alguma amiga.
Realidade totalmente diversa, dos dias de hoje, parece que vivíamos em outra era. Como as opções eram poucas, sobrava tempo para tudo: estudar, ler, escrever, rezar, brincar, descansar, sonhar.
Aprendíamos vivenciando o dia a dia e não vendo a vida correr numa telinha de computador. Hoje nossas crianças são espectadoras de um mundo virtual, que não é o seu. Isso alimenta um consumismo desnecessário e exagerado.
Quem foi criança, naquele tempo e não plantou uma árvore ou formou uma hortinha em seu quintal? Quem não brincou de cirquinho?
As brincadeiras eram tantas que é difícil enumerá-las: ler e contar histórias, pular corda, andar de charrete ou bicicleta, queimada. Os meninos, mais ousados, iam nadar nos rios, brincar de cowboy, subir em árvores, soltar pipas; enquanto as brincadeiras das meninas eram mais suaves: brincar de bonecas, de casinha, de cantigas de roda, entre outras tantas.
À noite, as ruas e os quarteirões eram extensões de nossos lares: a conversa entre adultos “corria solta” e as brincadeiras entre crianças animavam aqueles tempos. Um tempo feliz como foi aquele! Brigas, problemas, conflitos existiam, mas seriam resolvidos mais tarde.
O que falar dos aniversários das crianças daquele tempo? Tudo era realizado na própria residência, pela mamãe, pela vovó e pela auxiliar da cozinha. Quanto esmero!
Infância fase mágica, impregnada de eternidade. O poema “Evocação do Recife”, de Manuel Bandeira (1886-1968), poeta da primeira fase do Modernismo Brasileiro, é um reflexo do que eu sinto hoje. Vejamos um trecho dele:

“Evocação do Recife”
“Foi há muito tempo.
A vida não me chegava pelos jornais, nem pelos livros.
Vinha da boca do povo, língua errada do povo,
Língua certa do povo.
Por que ele é que fala gostoso o português do Brasil.

Ao passo que nós,
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada. (portuguesa)

É muito complicado comparar épocas, mas é inevitável fazê-lo quando falamos de infância. Que saibamos aproveitar todos os acontecimentos e recursos a nossa disposição nos dias atuais, para construirmos uma sociedade mais justa, humana e feliz.

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