Colunistas

O poder dos genes editados

Prof. Dr. Paulo Cesar Naoum
biomédico, professor titular pela Unesp,
diretor da Academia de Ciência e Tecnologia
e ocupa a cadeira 33 da ARLC. Autor do
livro Em nome do DNA, Livraria Médica
Paulista, 2010.
[email protected]

 

Castas, poder e riqueza são fatores que determinam a evolução da nossa espécie e do meio em que vivemos, quer seja para o bem ou para mal. Em ciência e tecnologia acontece o mesmo, pois há pessoas sensatas que buscam soluções para as doenças, para a qualidade do meio ambiente, entre outros, mas há, também, aquelas que insistem em promover o caos para terem mais poder e riqueza. Embora a ciência destinada ao bem geral ainda não tenha encontrado efetivas formas para bloquear genes defeituosos, por exemplo, os genes da hemofilia, do câncer ou da anemia falciforme, castas providas com riquezas tentam por meio de novas tecnologias gerarem filhos com atributos que lhes deem mais inteligências e habilidades.
Certamente imaginam que com esses ajustes biológicos obterão mais poder e riqueza. O projeto de um ser com qualidades excepcionais não é, de fato, difícil de ser colocado em prática. Este desafio da ciência é conhecido por Engenharia de linhagem genética programada. Inicialmente este projeto foi apresentado para prevenir o nascimento de pessoas com doenças graves, mas, na sequência, grupos de pesquisadores com reputações duvidosas começaram a direcionar o projeto no sentido de construir ou editar seres humanos especiais com o intuito de oferecerem a aplicação deste procedimento técnico para ricas e poderosas famílias que dominam países e continentes.
Sua execução é possível, porém, como acontece com quase todos os projetos que ultrapassam as fronteiras do controlável, há a possibilidade de ocorrerem resultados inesperados ou desastrosos. Entretanto, há bases científicas e tecnológicas suficientes para executá-lo e, por mais estranho que possa parecer, o principal suporte para a sua realização provém dos recentes avanços em pesquisas usadas no tratamento de câncer, qual seja, as conhecidas terapias-alvo. Neste tipo de terapia é possível estimular ou bloquear a ação de determinados genes que executam a produção de proteínas, enzimas ou hormônios.
Na concepção filosófica dos pesquisadores que trabalham na busca de seres humanos produtivamente ideais, há vários grupos de genes conhecidos que podem ser selecionados. Entre esses grupos, destacam-se os nove tipos de inteligências múltiplas (lógico-matemática, linguística ou verbal, espacial, corporal-cinestésica, interpessoal, intrapessoal, musical, naturalista e existencialista). Somam-se à inteligência os atributos genéticos que controlam as emoções por meio da regulação de hormônios como a adrenalina, por exemplo. Inicialmente a técnica se faz por meio da seleção de pessoas com as características das vantagens desejadas e o isolamento de células germinais (espermatozoides e óvulos). Em seguida promove-se a produção de embriões e as análises dos principais genes de escolha, com relação às suas integridades biológicas.
O ser humano resultante desse processo de concepção passa a ser estimulado por drogas de terapia-alvo, semelhantes àquelas usadas em tratamentos de câncer, com a diferença de que no câncer as células indesejáveis são mortas, enquanto nesta se estimulam as células com os genes desejáveis, por exemplo, a inteligência lógico-matemática, a atividade cerebral por estímulo de adrenalina e a alta resistência física. Como resultado surge um bebê editado conforme a encomenda. É evidente que este projeto tem forte oposição nos meios científicos, filosóficos e religiosos, o que torna difícil a sua efetivação contemporânea. Porém a casta, o poder e a riqueza podem impor seus desejos no momento que quiserem, pois sempre estiveram acima do bom senso.

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