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Doutores desempregados

 

PROF. DR. PAULO CESAR NAOUM

Biomédico, professor titular pela Unesp, diretor da Academia de Ciência e Tecnologia e ocupa a cadeira 33 da ARLC. Autor do livro Em nome do DNA, Livraria Médica Paulista, 2010. “Doutores desempregados”
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As proliferações descoordenadas de cursos universitários por todo o Brasil estão mostrando as perversidades de seus resultados. Brasileiros com certificados de graduações universitárias não estão encontrando empregos para exercerem atividades nas áreas em que graduaram. A situação atual já era conhecida pontualmente há mais de 30 anos, quando centenas de cursos de direito e de administração foram criados e instalados em diversas cidades. Em direito, por exemplo, advogados com o título de bacharel, porém considerados doutores, foram os primeiros a experimentarem as desilusões do desemprego. Estrategicamente a Ordem dos Advogados do Brasil instituiu o “exame da OAB” selecionando minimamente os mais capacitados, uma exigência básica, porém meritória, para profissionais desta área conseguirem empregos. Administradores de empresas, por outro lado, tiveram que galgar dezenas de degraus através de cursos de especializações profissionais, com destaques aos MBA, para obterem empregos em empresas de prestígios. Na minha profissão, a biomedicina, ocorreu também um processo descontrolado de criação de cursos de graduação. Tal qual os cursos de direito e de administração, grande parte dos de biomedicina carece de estrutura filosófica, científica e tecnológica para formarem seus profissionais. Entretanto há vários outros cursos que estampam este mesmo desenho de decepção profissional: psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, história, geografia, etc. Em 2013, um programa do governo federal do partido dos trabalhadores conhecido por “Mais médicos”, fundamentado no assistencialismo político para cobrir deficiências de médicos para populações pobres ou carentes, desencadeou uma explosão de
aberturas de novos cursos de medicina por todo o país. Sabe-se que grande parte dos novos cursos médicos não possuem condições adequadas para formarem profissionais, pois faltam professores especializados, hospitais para aprendizagens e treinamento, além de residências médicas com adequações mínimas. Contingentes desses profissionais que começaram a entrar no mercado desde 2017 se avolumarão nos próximos anos, e consequentemente haverá médicos com dificuldades de se empregarem. Mas não é somente o desemprego de profissionais com diplomas universitários que se juntam aos milhões de desempregados do Brasil, há também os mestres e doutores que obtiveram títulos acadêmicos por meio de anos de desenvolvimento de pesquisas. Atualmente é quase uma conveniência de que cursos de pós-graduações e as bolsas oferecidas pela CAPES, CNPQ e outras instituições de fomentos estaduais, funcionam como pagadoras de salários durante a efetivação dos serviços dos pós-graduandos. Entretanto no dia seguinte à defesa de suas teses esses profissionais se juntam à imensa população de desempregados. Aqueles que se formaram para funções acadêmicas, ao pleitearem vagas em instituições universitárias públicas, se desiludem pois não há vagas disponíveis para contrata-los. De outra forma, as instituições privadas contratam o número mínimo destes profissionais para atender as exigências básicas do MEC pagando salários vexatórios. Desta forma, está sendo cada vez mais comum, pessoas com títulos acadêmicos, publicações científicas e bom currículo, estarem na insuportável situação de desempregado. O que fazer? Esta é uma boa pergunta para os presidenciáveis da eleição de 2018.

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