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Não temos tempo nem dinheiro a perder

 

Dr. Yussif Ali Mere Jr

Presidente da Federação e do Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (FEHOESP e SINDHOSP) e do SINDRibeirão. “Não temos tempo nem dinheiro a perder”
[email protected]p.com.br

Os recursos na saúde são um dilema no mundo todo, por várias razões. A medicina avança e encarece, os tratamentos evoluem, as pessoas vivem e adoecem mais. Haja dinheiro para tanto. Há quem diga que este seja um problema insolúvel. No entanto, se colocarmos uma lupa sobre os gastos e os recursos, veremos que é possível mudar e melhorar. Os eventos adversos em saúde, que podem ser evitados, por exemplo, consomem até R$ 15 bilhões da saúde privada no Brasil por ano. São dados do estudo “Erros acontecem: a força da transparência no enfrentamento dos eventos adversos assistenciais em pacientes hospitalizados”, do Instituto de Estudos para a Saúde Suplementar (IESS). Aqui, estamos falando apenas da saúde privada, uma vez que não há elementos nem controle suficientes sobre os erros cometidos no SUS. Outro problema, este bem brasileiro, são os leitos ociosos. Dados do Banco Mundial indicam que menos de 40% dos leitos hospitalares são ocupados no Brasil, o que custa cerca de R$ 20 bilhões ao ano. Soma-se a isso os hospitais pequenos, comprovadamente ineficientes, que são a maioria no Brasil: 65% dos hospitais do país têm menos de 50 leitos e apenas 13% têm cem leitos ou mais. As órteses, próteses e materiais especiais são um caso à parte. Estudo encomendado pelo Núcleo de Assessoramento
Econômico da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) à Fundação Coordenação de Projetos, Pesquisas e Estudos Tecnológicos (Coppetec) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) revelou, por exemplo, que uma prótese de quadril pode custar de R$ 2.282 a R$ 19 mil, uma diferença de R$16.718 ou 733%. Apenas um exemplo. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que, no mundo todo, perde-se de 20% a 40% dos gastos com saúde em desperdício. Trazendo este número para a realidade brasileira, podemos dizer que as perdas no país custam hoje cerca de R$ 80 bilhões. Dez por cento disso (R$ 8 bilhões) entra na conta da corrupção. Transparência é a palavra-chave para a transformação na saúde. Experiências isoladas, mas bem-sucedidas, mostram-nos o caminho. O programa do Hospital Albert Einstein, que estabeleceu a segunda opinião em cirurgia de coluna, por exemplo, revelou que apenas 41% dos pacientes que tinham indicação cirúrgica precisavam de fato da operação. Iniciada em 2011, a ideia se multiplica: em 2016, a Beneficência Portuguesa de São Paulo implantou iniciativa semelhante, com resultados ainda mais impressionantes: em cerca de 60% dos episódios, o procedimento não era o mais indicado aos pacientes. Ao que me parece, a transparência é a base para a transformação do país inteiro, e não apenas na saúde.
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