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O que é psiconeuroimunologia ou psicoimunologia?

 

MARIA DE LOURDES PIRES NASCIMENTO, MD

Hematologista, Universidade Federal da Bahia / UFBA
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Desde a época de Hipócrates (460 Anos Antes de Cristo), havia referencias para a existência da associação entre as emoções e as doenças. Nas décadas atuais (ou seja 2.000 Anos Depois de Cristo), devido aos avanços das biologias celular e molecular, da genética, da neurociência e dos estudos da imagem cerebral, os avanços nestas áreas revelaram que as diversas conexões entre os sistemas neuroendócrino, neurológico e o imunológico, estão presentes na relação entre as emoções e as doenças (DANTZER 2003, HILL 2010).

Psiconeuroimunologia é uma especialidade da área de saúde cujos trabalhos vem contribuindo para a compreensão da saúde, de que o corpo é uma somatória integrada e indissolúvel entre o mental e o orgânico, sendo influenciado, de modo significativo, pela experiência de vida e por sua própria sensibilidade (MARQUES-DEAK 2004, MAIA 2002, KIECOLT-GLASER 2002, NYKLICEK 2005).

Segundo Bottura (BOTTURA 2007): “Os estados emocionais são desencadeadores, por sí só, de uma série de alterações bioquímicas no organismo que afetam diretamente nossas condições imunológicas”. Existe uma comunicação entre os sistemas nervoso, endócrino e imunológico, através de neurotransmissores e hormônios que modulam e regulam o sistema nervoso central (KAPCKINSKI 2009, SILVA 2016). Recordando de modo resumido a função básica dos sistemas e termos referidos anteriormente temos:

– Sistema Nervoso é uma rede de comunicação do organismo, formado por um conjunto de órgãos cuja função é captar as mensagens, os estímulos do organismo, interpretando e arquivando. Ao mesmo tempo é o Sistema Nervoso quem elabora as respostas que podem ser dadas em forma de movimentos, sensações ou constatações. O Sistema Nervoso possui duas partes: Central (cérebro, cerebelo, tronco-encefálico e medula espinhal) e Periférico (nervos cranianos e nervos raquidianos). A grande maioria dos Neurônios do cérebro são formados durante o período do pré-natal – é a Neurogênese – entretanto partes do cérebro dos adultos mantêm a habilidade de fazer crescer outros Neurônios a partir de células tronco neurais. Após o nascimento, são as Neutrofinas que ajudam a estimular e a controlar a Neurogênese a partir de Células Progenitoras. O principal “alimento” do nosso cérebro para a manutenção de suas atividades são as Neutrofinas, uma família de proteínas que induzem a sobrevivência, desenvolvimento e função dos Neurônios (HEMPSTEAD 2006, REICHARDT 2006). As Neutrofinas estimulam a sobrevivência, a diferenciação e o crescimento dos Neurônios (ALLEN 2006, SILVA 2009).

– Sistema Endócrino é um conjunto de glândulas responsáveis pela produção dos hormônios que são lançados no sangue e percorrem o corpo até chegar aos órgãos-alvo, sobre os quais atuam. As Glândulas do Sistema Endócrino estão localizadas em diferentes partes do corpo, são: Hipófise, Tireóide, Paratireóides, Timo, Suprarrenais, Pâncreas e as Glândulas Sexuais. Junto com o Sistema Nervoso o Sistema Endócrino coordena todas as funções do nosso organismo.

– Sistema Imunológico ou Imunitário ou Imune é um sistema de estruturas e processos biológicos que protege o organismo contra doenças. Para que o organismo funcione corretamente e continue saudável, o Sistema Imune deve detectar uma grande variedade de agentes que são estranhos ao organismo (vírus, bactérias, parasitas, corpos estranhos, etc.). São os componentes deste sistema: Barreiras Físicas e Mecânicas (pele, trato respiratório, membranas, mucosas, fluidos corporais, tosse, espirro), Barreiras Fisiológicas (temperatura corporal, acidez do trato gastrointestinal), Barreiras Celulares que através de determinadas

reações eliminam partículas, inibem reações de microorganismos estranhos (leucócitos com as reações inflamatórias e imunológicas).

– Neurotransmissores são substâncias produzidas pelos Neurônios (as células nervosas) com a função de sinalização, é por meio dos Neurotransmissores que existe o envio de informações para outras células. Eles também podem estimular a continuidade de um impulso ou efetuar a reação final em um órgão ou em um músculo alvo.

– Hormônios garantem o equilíbrio do nosso organismo, são as substâncias lançadas diretamente na corrente sanguínea, controlam diversas atividades do corpo humano, sendo produzidos pelas Glândulas Endócrinas (Hipófise, Tireóide, Supra-Renais, Pâncreas, Testículos e Ovários).

Geralmente os “pequenos esquecimentos mentais” que afetam a vida diária, comumente podem estar sendo relacionados com algumas causas: idade avançada, arterioesclerose, “início” de Alzheimer, etc. Atualmente os neurocientistas tem comprovado que “pequenas” perdas de memória, esporádicas e em curto prazo, nem sempre se deve a idade ou a morte dos neurônios, mas sim à redução do número de conexões nervosas…por falta de “atividade”. A Psiconeuroimunologia investiga as ligações entre o cérebro e o sistema imunológico, assim como as implicações destas ligações na saúde física e na doenças. As condições de estresses psicossociais diminuem a eficiência da atuação do sistema imunológico aumentando o risco de uma doença, porque a depressão e o estresse estão intimamente ligados as respostas imunológicas, ficando o organismo mais vulnerável ao surgimento e ou ao agravamento de novas doenças (KEMENY 1999, SILVA 2016). Em qualquer idade, do mesmo modo que um músculo se atrofia se não for usado, as conexões nervosas também se atrofiam, se não são usadas com frequência, porque a função e habilidade do cérebro para continuar ativo, precisa sempre de receber constantemente novas informações, pois são estas comunicações que mantem ativo e regula o sistema nervoso central.

Referencias

1) Dantzer R. Cytokines and sickness behavior. Vol. 1. Boston: Kluwer Academic Publisher, 2003.

2) Marques-Deak A, Sternberg E. Editorial / Psiconeuroimunologia – A relação entre o sistema nervoso central e o sistema imunológico. Rev. Bras. Psiquiatr. 26 (3): 143-144, 2004.

3) Kapczinski F, Izquierdo I, Quevedo J. Bases Biológicas dos Transtornos Psiquiátricos: uma abordagem translacional. In; parte I – Bases Biológicas do Funcionamento do Sistema Nervoso Central, 4. Psiconeuroimunologia, pg. 77. Artmed Editora, 1 de janeiro de 2009.

4) Maia AC. Emoções e Sistema Imunológico: um olhar sobre a Psiconeuroimunologia. Psicologia: Teoria, Investigação e Prática. 2: 207-225, 2002.

5) Silva PLG & Araujo ML. Psiconeuroimunologia: uma revisão da literatura. Revista Perquirere, 13 (2): 122-141, dez. 2016.

6) Bottura W. Psiconeuroimunologia. Rev Med (São Paulo). Jan-Mar, 86 (1): 1-5, 2007.

7) Hill AL, Rand DG, Nowak MA, et al. Emotions as infectious diseases in a large social network: the S/Sa model. Proc R Soc B. 277, 3827-3835, 2010.

8) Kiecolt-Glaser JK, McGuire L, Robles TF, Glasser R. Emotions, Morbidity and Mortality: New Perspectives from Psychoneuroimmunology. Annual Review of Psychology. 53: 83-107, 2002.

9) Nyklicek I, Temoshok L, Vingerhoets A. Emotional Expression and Health Advances in Theory, Assesment and Clinical Applications. Ed. Taylor & Francis e-Library, 2005. Hove and New York.

10) Hempstead BL. Dissecting the diverse actions of pro-and mature neurotrophins. Curr Alzheimer Res. 3 (1): 19-24, 2006.

11) Reichardt LF. Neutrophin-regulated signaling pathways. Philos Trans R Soc Lond B Biol Sci. 361 (1473): 1545-1564, 2006.

12) Allen SJ, Dawbarn D. Clinical relevance of the neurotrophins and their receptors. Clin Sci. 110 (2): 175-191, 2006.

13) Silva IS. Revisão. Neurogênese no Sistema Nervoso Adulto de Mamíferos. Revista da Biologia – www.ib.usp.br/revista – Volume 3, pgs. 9-14 – Dezembro de 2009.

14) Kemeny ME & Gruenewald TL. Psychoneuroimmunology update. Seminar of Gastrointestinal Diseases. 10, 20-29, 1999.

15) Silva PLG. Psiconeuroimunologia: uma revisão da literatura. Perquirere. 13 (2): 122-141, 2016.

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