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Hospital São Lucas pode dobrar transplante de medula óssea para pacientes conveniados em Ribeirão Preto

Previsão de investimento em novas estruturas e salas de isolamento para internação vai possibilitar atendimento de pacientes com planos de saúde de todo o país

Pioneiro, em 2010, o Hospital São Lucas foi o primeiro hospital privado local a realizar transplante de medula óssea por meio de convênio médico. Com a experiência adquirida neste período, ano a ano o número de atendimentos foi sendo ampliado, até chegar aos atuais 25 transplantes por ano. Este número só não foi maior devido à necessidade de isolamento e de internação destes pacientes durante o tratamento. “Com os novos investimentos que vão ser feitos, com certeza vamos poder dobrar a capacidade de transplantes que fazemos hoje”, diz Marina Assirati Coutinho, médica responsável pela Unidade de TMO. No final do ano passado, a Hospital Care, holding de hospitais dos fundos Bozano e Abaporu, adquiriu o controle do Hospital São Lucas e já iniciou os trabalhos de ampliação da estrutura de atendimento. Hoje com capacidade de 97 leitos, serão abertos mais 62 leitos, e ainda vinte novas vagas em UTIs, além dos três quartos com características técnicas para isolamento. As obras, que devem durar dois anos, são a primeira etapa de um investimento que pode chegar a R$ 70 milhões. A hematologista participou da implantação da Unidade de TMO. “Sabíamos que oferecer a possibilidade de realizar o transplante por meio de plano de saúde desafogaria a fila do SUS, que dependia da capacidade do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto em realizar a terapia.” O número de leitos na unidade do HC, cinco no total, é o mesmo desde o início do serviço, há quase duas décadas. Em 2016, o hospital realizou 60 transplantes de medula óssea. Uma fila que poderia ser evitada, já que, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), quase 30% dos brasileiros possuem planos de saúde e a cobertura de transplante de medula óssea é procedimento obrigatório para os convênios médicos. A média complexidade é bem atendida nos hospitais privados
Ribeirão Preto/SP
locais, mas a alta complexidade, como os transplantes, cirurgias cardíacas, UTIs, precisam de novos investimentos para atender a demanda. Apesar de ser um polo regional de saúde, estudos apontam também que há um déficit local de entre 120 e 140 leitos nos hospitais privados. Para o caso específico do transplante, a abertura de novos leitos de internação significa reduzir a espera, essencial para o sucesso no tratamento, aumentando a chance de sobrevida destes pacientes. Hoje, o Hospital São Lucas atende principalmente doenças como linfomas, mielomas e pacientes com leucemias, e realiza apenas transplantes autólogos (com células tronco do próprio paciente). Com a ampliação prevista, a equipe poderá realizar também transplantes alogênicos (de doadores por compatibilidade), que requerem um maior tempo de internação. “Dependendo das condições físicas gerais, um paciente que recebe transplante autólogo fica em média 20 dias internado. Para o alogênico, este tempo pode ser maior, porque a medula demora mais a reagir.” Segundo Marina Coutinho, também se abrirá mais espaço para as pessoas que recebem indicação de transplante de medula em tratamentos contra tumores sólidos. “Um paciente que não reagiu ao tratamento convencional, pode ser submetido a uma quimioterapia de altas doses, que sempre afetam a medula e podem provocar aplasia. A medula é um tecido de proliferação muito rápida e sensível à quimioterapia. Então, é necessário, antes da administração das drogas, colher as células tronco deste paciente. Elas são preservadas em criobiologia (congelamento) e em seguida transplantadas de volta, para que a medula óssea reaja no organismo bombardeado em busca das células cancerígenas residuais. É como uma semente, como uma muda replantada no paciente, depois de retirada a erva daninha que o afetava.”

 

Novos desafios
Toda a engenharia necessária para a construção dos novos leitos já está em análise na Vigilância Sanitária, porque implica questões técnicas específicas, como a instalação dos filtros tipo HEPA. “Os quartos de isolamento devem ser livres de qualquer tipo de partícula que possa comprometer o pós-operatório. A equipe de enfermagem também é exclusiva, para evitar qualquer tipo de contaminação externa.” Como os pacientes não tem contato com outras pessoas, só com a equipe médica, com internações longas, Marina destaca que a questão da humanização no atendimento é uma preocupação constante. Hoje, fazem parte da equipe médica os hematologistas Maria Isabel Ayrosa Madeira e Leandro Dalmazzo, ambos com especialização em TMO. A equipe de enfermagem é coordenada pela enfermeira Neide Souza. Finalmente, outra novidade prevista no projeto que deve facilitar o fluxo de internações é a criação do hospital-dia, que possibilitará a alta precoce para os pacientes que necessitem apenas de acompanhamento medicamentoso posterior ou dieta específica. Empolgada com as novas perspectivas, Marina Coutinho comemora o avanço das obras. “É sempre uma vitória quando damos alta para um paciente. Recebemos elogios maravilhosos. É a compensação de um trabalho sério e por poder oferecer um tratamento que realmente significa salvar a vida de uma pessoa.”

 

Vocação de família
Foi ainda na residência médica que Marina descobriu o que seria sua paixão acadêmica. Se formou na Santa Casa de São Paulo, fez especialização em hematologia e transplante de medula óssea no Fred Hutchinson Cancer Center, Seattle, USA, e durante uma década acompanhou o avanço das pesquisas na Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto (FMRP-USP). No início dos anos 2000, fez parte da equipe que realizou o primeiro transplante de células tronco em um paciente diabético, ao lado do professor Júlio César Voltarelli, pioneiro e na época a maior autoridade em pesquisas na área no país. Marina também trabalhou sempre ao lado do pai, o também hematologista Vicente Coutinho, professor na USP.

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