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Humanos: raça, ancestralidade, etnia, miscigenação e autodeclaração

Dra. Maria de Lourdes Pires Nascimento, MD
Hematologista, Universidade Federal da
Bahia / UFBa, MD

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A classificação dos seres humanos em Raças é uma construção da Sociologia, que foi usada para distinguir pessoas que tinham uma ou mais características consideradas “Sociologicamente Significativas”. No final do século XIX a Sociologia abandonou as explicações sobre o mundo social baseados em Raças, porque esta classificação poderia ser responsável pela criação e manutenção de Sistemas com Desigualdades Sociais (KEITA 2004, FERNANDES 2008).
Para a Genética todos os humanos provêm de um só tronco o Homo sapiens, logo o patrimônio hereditário dos humanos é comum a todos. Para os geneticistas (BARBUJANI 2007, PENA 2005, STELLING 2007) o conceito de que existem diferentes “raças humanas” foi criado pelo próprio homem e ganhou força com base em interesses de determinados grupos, que necessitavam de justificativas para a dominação sobre outros grupos. Nos últimos anos a palavra Raça vem desaparecendo dos livros escolares e as antigas classificações foram desacreditadas. Isto aconteceu graças as descobertas da Genética, da Etnologia e da Paleontologia. Para Guimarães (2003) os conceitos de Raça foram ciência por um certo tempo, mas depois virou pseudociência, dando origem ao surgimento do Racismo, que não existiria se não houvesse estes conceitos que geraram as subespécies dentro das populações humanas.
Ancestralidade é uma particularidade ou estado que se refere aos antepassados ou antecessores, em relação ao que se recebeu das gerações anteriores, podendo ter como sinônimos a Hereditariedade, a Antiguidade e a Ascendência.
Etnia significa um grupo que culturalmente é homogêneo, ou seja um povo que tem os mesmos costumes e geralmente a mesma origem, cultura, religião, etc. O termo Etnia não é sinônimo de Raça (SANTOS 2010).
Miscigenação, atualmente a distribuição dos genes mostram que o parentesco entre populações tradicionalmente identificadas como Raças Humanas são muito mais próximas do que se pensava anteriormente (LEWONTIN 1972, BUCHARD 2003, COOPER 2003, LONG 2003). A população brasileira é uma das mais miscigenadas do mundo, resultado de 500 anos de acasalamento de pessoas de três continentes (europeus, africanos e ameríndios).
Autodeclaração ou Autoclassificação as pessoas podem se classificar – ou se autodeclarar – como pertencentes a um grupo (racial ?) de acordo com as suas convicções. Desde 1872 no Brasil os critérios de aparência física em Censos, Questionários e Formulários são através do Fenotipo (“aparência externa”). Para o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de acordo com a cor da pele, as pessoas tem as seguintes opções para se Autodeclarar: branco, preto, amarelo, indígena, pardo e “sem declarar”. Segundo o IBGE estas cinco palavras são capazes de resumir as identidades étnico-raciais de cerca de 200 milhões de brasileiros. No Brasil os Censos Demográficos são feitos a cada 10 anos, e o último foi realizado em agosto de 2010, sendo o total da população 190.755.799 (IBGE 2010, PETRUCELLI 2013).
As respostas as Autodeclarações geram as seguintes questões: – Parda é a mistura de todas as raças, sendo uma palavra que raramente é usada pelos brasileiros, porque a palavra preferida para definir a sua cor é Moreno, geralmente esta palavra é usada para omitir o uso da palavra Parda ou Negra.
– No Brasil a definição da cor da pele muda até com a situação que o indivíduo se encontra, por exemplo: ele pode ser negro no carnaval, preto para o IBGE, moreno para os amigos, neguinho ou escurinho nas relações afetivas, negro ou afrodescendente para entrar no Sistema de Cotas das Universidades Públicas.
A Autodeclaração também pode mudar de acordo com o desejo de ser aceito em um grupo social dominante. Não sendo raro o entrevistado “embranquecer” sua cor quando ele quer dar ao entrevistador a impressão de possuir um status socioeconômico superior.
Referências
Keita SOY, Kittles RA, Royal CDM, et al. Conceptualizing human variation. Nature Genetics, 36 (11s): S27-S20, 2004.
Fernandes F. A integração do Negro na sociedade de classes. Editora Globo, 5ª, edição, 2008.
Barbujani G. L’invenzione dele razze SPA, Milan, 2006. A invenção das raças. S. Paulo: Editora Contexto, 2007, 175p.Tradução por Rodolfo Illari.
Pena SDJ. Razões para banir o conceito de raça da medicina brasileira. História, Ciências, Saúde – Manguinhos. 12 (1): 321-346, maio-ago. 2005.
Stelling LFP. “Raças humanas” e raças biológicas em livros didáticos de Biologia de ensino médio. Tese de Mestrado, 2007. Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense. Niterói.
Guimarães ASA. Como trabalhar com “raça” em Sociologia. Educação e Pesquisa, São Paulo. 29 (1): 93-107, 2003.
Santos DJS, palomares NB, Normando D, Quintão CCA. Raça versus etnia: diferenciar para melhor aplicar. Dental Press J Orthod. 15 93): 121-124, 2010.
Lewontin RC. The apportionment of human diversity. Evol Biol 6:381-92, 1972.
Burchard EG, Ziv E, Coyle N, Gomez SL, Tang H, Karter AJ, Mountain JL, Perez-Stable EJ, Sheppard D, Risch N. The importance of race and ethnic background in biomedical and clinical practice. N Engl J Med 348:1170-75, 2003.
Long JC, Kittles RA. Human genetic diversity and the nonexistence of biological races. Human Biology 75:449-71, 2003.
Cooper RS, Kaufman JS, Ward R. Race and Genomics. N Engl J Med 348:1166-70, 2003.
Petrucelli JL, Saboia AL. Características Étnico-Raciais da População, Classificações e Identidades. IBGE, rio de Janeiro 2013.
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo 2010. https://censo2010.ibge.gov.br/
Consulta em 11 /11/2017

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1 thought on “Humanos: raça, ancestralidade, etnia, miscigenação e autodeclaração”

  1. Dra. Maria, seu texto é carregado de um grau elevadíssimo de verdades e conhecimento. Não há, também ao meu ver, uma divisão real e biológica da espécie humana em raças. Somos todos, pois, homo sapiens. Somos todos iguais! PERFEITO! Parabéns pela bela reflexão.

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