Colunistas

O laboratório e as fake news

 

IRINEU GRINBERG

[email protected]

Na nossa atualidade, nos tempos de redes sociais, comunicação farta e rápida, temos sido assolados por enxurradas grandiosas de notícias de todas as vertentes. As publicações do tipo “bom caráter”, aquelas voltadas à ajuda, informação ou orientação tem sido suplantadas por notícias falsas e tendenciosas que procuram de todas as formas modificar o pensamento dos leitores, ora com conotação política, que podem até decidir eleições, ou ainda influenciando compras ou aquisições de todas as espécies, e substancialmente, incutindo novos costumes, modismos e tendências.
Lamentavelmente essas publicações não envolvem apenas fofocas ou fatos pitorescos. São trabalhos muito bem estruturados, com a lavra oculta de capacitados profissionais de comunicação, induzindo a um fácil convencimento de quem tem o hábito ou a oportunidade de visualizá-los.
Principalmente àqueles a quem o conteúdo da mensagem vem ao encontro de seus desejos ou anseios.
Quando essa situação é projetada ao setor saúde as consequências tornam-se nefastas, acarretando ou agravando graves enfermidades com iminente perigo de vida. Um percentual quase inacreditável de 90% de leitores afirmam que acreditariam sobre qualquer assunto publicado nas redes sociais, mesmo que o compartilhamento dos links sejam publicados por desconhecidos, segundo recente pesquisa do “The Independent” , prestigiado periódico britânico.
Recentemente a Sociedade Espanhola de Oncologia Médica (SEOM) firmou um acordo de cooperação para poder desmentir todas as notícias falsas sobre câncer que circulam na Internet, pois essas publicações são as que mais proporcionam estragos sanitários. Por esse acordo a SEOM tentará responder ou desmentir todas as notícias falsas, aquelas publicadas nos meios convencionais de comunicação que contenham informações exageradas ou distorcidas.
No recente surto de febre amarela ocorrido no centro do país foram incontáveis as publicações falsas ou de origem suspeita, que adicionaram lenha da pior qualidade às fogueiras já existentes.
No setor laboratorial, certamente o maior embuste de todos os tempos foi o proporcionado pela Theranos, que anunciou o descobrimento do milagre de oferecer testes laboratoriais altamente confiáveis, baratos com uma quantidade mínima de sangue colhido em tubos do tipo Ependorf ou similares, ou gotas absorvidas em papel filtro. O empreendimento cresceu tanto que seu valor de mercado chegou a U$ 9,4 bilhões. Elizabeh Holmes, jovem bonita e solteira, proprietária de 51% do negócio passou a ser a estrela maior do “business cenário” nos EEUU. O lendário Henry Kissinger, uma das maiores figuras políticas americanas de todos os tempos era o Presidente do Conselho de Administração da corporação. O negócio disparou quando foi fechado um convênio em que 1.500 estabelecimentos da rede de Farmácias Walgreen, a maior dos EEUU começaram a realizar coleta de material num processo experimental que, se bem sucedido, seria estendido para toda a rede.
Este crescimento vertiginoso alertou a concorrência, que no mercado americano é grande e livre e rapidamente foram evidenciadas não conformidades de exatidão e precisão. Os equipamentos fabricados pela própria Theranos seriam, na verdade equipamentos convencionais adaptados a quantidades mínimas de material biológico.
A magia da Theranos não mais existe.
No nosso país, com o advento e posterior massificação dos testes laboratoriais remotos ou testes rápidos (denominação ao nosso ver inapropriada), algumas ideias do tipo ovo de colombo começaram a ser implantadas.
Uma delas introduziu equipamentos de leitura das tiras, através de fotografias analisadas à distância por equipes de profissionais. Portanto tiras reagentes destinadas a ser interpretadas por leitura visual, essência da criação dos testes laboratoriais remotos, foram transformadas ou adaptadas a um sistema de quantificação, que alguns membros da nossa “comunidade científica” insistem em denominar como um das derivações da tele medicina. Já existem variações deste lançamento inicial que, através de aplicativos em celulares fotografam a reação ocorrida na tira, que, da mesma forma, é remetida às equipes de plantão que interpretam a fita e após remetem um laudo via web.
Uma análise inicial bem simples deixa clarificado que dois itens fundamentais determinam o êxito dos testes laboratoriais remotos. O primeiro é a coleta de material. O tamanho da gota de sangue a ser colocada no pack é fundamental para o êxito do teste. Gotas insuficientes ou excessivamente grandes prejudicam a leitura. O segundo seria a implantação do controle de qualidade interno utilizando controles positivos e negativos a cada abertura de um novo lote ou caixa.
Por derradeiro, há que se retornar à RDC 302/2005 da ANVISA que é muito clara no que diz respeito aos testes laboratoriais remotos, que devem ser realizados sob a responsabilidade de um Laboratório de Análises Clínicas legalmente registrado, cujo responsável técnico será também o responsável pelo treinamento, controle de qualidade e por todos os laudos emitidos.
Testes laboratoriais remotos realizados em Farmácias ou Unidades de Urgência e Emergência ou Pronto Atendimento e lidos à distância por profissionais de plantão não estão em consonância com a atual legislação.
Importante, também realçar que essas inovações vem sempre acompanhadas por todos os tipos de publicações principalmente nas redes sociais, onde pontifica o milagre do exame indolor, realizado em uma gotinha de sangue.

Mostre mais

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também

Close
Close