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Saúde, desperdício e corrupção

 

DR. YUSSIF ALI MERE JR

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A três meses das eleições, pesquisa Datafolha divulgada recentemente mostra que a saúde é a segunda maior preocupação dos brasileiros, atrás da corrupção e seguida da segurança pública e do desemprego. No ano em que comemoramos os 30 anos do Sistema Único de Saúde (SUS), as políticas do setor não conseguem fazer com que a população perceba valor no sistema, afinal, a saúde figura nessa lista de preocupações há mais de dez anos. Se é recorrente, por que o país até hoje não conseguiu sanar os problemas do setor?
O mercado de saúde brasileiro está entre os dez maiores do mundo. Movimenta mais de R$ 550 bilhões por ano, incluindo os investimentos da União, Estados, municípios, do setor suplementar e o gasto direto das famílias. Desse total, 47% são recursos públicos destinados à assistência de 77% dos brasileiros que dependem exclusivamente do SUS. O setor suplementar e o gasto direto das famílias somam 53% dos recursos e, convém lembrar, apenas 23% da população possui plano de saúde. É óbvio que o investimento público é incapaz de fazer valer o que determina a Constituição, que “saúde é direito de todos e dever do Estado”. Portanto, faltam recursos para a saúde, mas, também, podemos fazer mais com o que temos.
A assistência deveria ser prestada por equipe multiprofissional integrada e de forma horizontalizada. Nesse processo, o papel de muitas profissões precisa ser revisto. A formação, inclusive do médico, deve ser repensada, para que o sistema ganhe mais generalistas e o hospital, que é uma estrutura cara, deixe de ser a porta de entrada do sistema.
No SUS, o programa Estratégia Saúde da Família já atinge 65% da população. São mais de 70 mil equipes atuando no país. Com a estrutura da atenção básica encaminhada, nota-se um gargalo na assistência de média e alta complexidades e na ausência do médico de referência. O agendamento para consultas com especialistas e exames é demorado e, muitas vezes, o paciente chega para tratamento com a saúde já bastante debilitada, diminuindo a eficácia e onerando o processo.
O desperdício é um mal que precisa ser combatido, tanto pelo setor público quanto pelo privado. A Organização Mundial de Saúde calcula que entre 20% e 40% de todos os gastos em saúde são desperdiçados por ineficiência. No Brasil isso representa de R$ 110 bilhões a R$ 220 bilhões. Os ralos são enormes, variados e ajudam a entender melhor por que a saúde é tão mal avaliada pelos brasileiros.
A saúde precisa ser vista de forma ampla, responsável e sem corporativismos, se quisermos garantir a sustentabilidade do sistema. Além disso, o cidadão deve ser educado para assumir a responsabilidade pela sua saúde e, também, pelos políticos que elege. Combater a corrupção, que atualmente é campeã na lista de preocupações do país, também é garantir mais recursos para a saúde, educação e segurança pública.

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