Ambientes doentes, povo doente


Um tema com certa relevância em saúde pública nos anos 90 foi sobre as infecções respiratórias graves adquiridas por meio de contaminações fluidas de equipamentos de ar condicionado em ambientes superlotados. Esses tipos de ambientes passaram a ser denominados por edifícios doentes. Relembrando, edifícios doentes são espaços como bancos, hospitais, centros de saúde, entre outros, geralmente com poucas janelas e refrigerados, frequentados por muitas pessoas ao longo do dia.

Vários relatos científicos foram publicados a respeito do aumento da incidência de doenças respiratórias relacionado com os edifícios doentes. Identificou-se naquela ocasião duas principais fontes causadoras das infecções respiratórias, quais sejam, os filtros sujos dos equipamentos de ar condicionado e as imundices orgânicas e microrgânicas expelidas por espirros e tosses.

A preocupação pública motivou algumas formas de conscientização, diminuindo, de fato, as infecções causadas por contaminações advindas de edifícios doentes. Como se sabe, o trópico não permite vacilo e, assim, a partir do ano de 2005, em nosso país carente de políticas públicas sérias e abrangentes, uma série de patologias transmissíveis por bactérias, vírus e parasitas retornaram para se estabelecer entre nós. As principais causas deste vacilo foram as seguintes:

1) saneamento básico inadequado em centenas de cidades brasileiras e em bairros periféricos das grandes metrópoles;
2) edifícios públicos doentes da própria administração pública;
3) residências inacabadas;
4) baixo nível de higiene das pessoas.

O saneamento básico inadequado se deve à centenária incompetência política na condução administrativa das nossas cidades. Os edifícios públicos doentes são os ambulatórios e enfermarias superlotadas de nossos hospitais e centros de saúdes. As residências inacabadas são milhões de casas sem reboco e pintura. É necessário esclarecer que casas sem reboco e pintura, por exemplo, facilita o acúmulo de contaminantes e de microrganismos. Em paredes sem reboco e pintura, sujeiras diversas e bolores propiciam o crescimento de todos os tipos de germes. Permitem, também, proliferações de insetos mimetizados com cores similares às das paredes sem pinturas, contribuindo para o retorno de doenças que estavam erradicadas há muito tempo no Brasil, ou sob controle sanitário, como são os casos de malária, febre amarela, dengue, zika, chagas, sarampo etc.

Se tivéssemos administrações públicas conscientes e eficazes certamente haveria a orientação e a promoção de facilidades para a colocação de reboco e pintura nas casas de cidadãos que carecem de condições financeiras para fazê-las. No ciclo vicioso da doença ambiental, as pessoas infectadas em suas casas doentes vão às unidades de saúde dos seus bairros, geralmente superlotadas com pessoas portadoras de várias patologias transmissíveis, e fazem deste ambiente um grande edifício doente. Com certeza outras formas de contaminações se somam a essas, por exemplo, a pouca higiene das próprias pessoas que frequentam os grandes edifícios doentes, roupas sujas usadas em camas e macas das enfermarias, toaletes sem limpezas.

Se quisermos um país com ambiente e povo saudáveis, devemos tornar públicas nossas contribuições de alertas sobre doenças que nos afetam diante das improbidades administrativas e desconhecimento público. Quem sabe, algum político possa ser sensibilizado!