Anticorpos neutralizantes e a COVID-19

*Carlos Aita


Com os óbitos por COVID-19 chegando perto de 4 milhões de pessoas no mundo, sendo quase 500 mil só no Brasil, pode-se dizer que um dos maiores desafios da ciência hoje é entender como ela evolui nos pacientes e buscar, assim, a maneira mais eficaz de combater essa doença que devasta nosso país e o mundo.

Com o trabalho incansável dos pesquisadores, temos hoje uma evidência científica que pode trazer luz à essa questão. Segundo estudo realizado pela Universidade de Yale, publicado em maio pela revista científica Nature Medicine, é possível relacionar a positividade do anticorpo neutralizante nos primeiros dias de infecção com a não
evolução da doença para uma forma mais grave.

O surgimento precoce dos anticorpos neutralizantes, entre o 5º e o 14º dia de evolução da doença nos pacientes infectados pela COVID-19, se manteve em níveis elevados até a melhora clínica, causando assim um efeito protetor. Enquanto nos pacientes que desenvolveram quadros graves a presença deste tipo de anticorpos ocorreu de modo mais tardio.

Foi possível, inclusive, relacionar a neutralização do vírus a esse efeito protetor, uma vez que, em pacientes onde esses anticorpos ocorreram mais tardiamente, a carga viral foi maior – analisada pelo RT-PCR de amostra nasal – do que a apresentada em pacientes onde surgiram dentro dessa janela de duas semanas iniciais.

Essa constatação sugere que terapias baseadas em anticorpos monoclonais ou em soro convalescente podem beneficiar mais os pacientes dentro dessa janela de duas semanas, o que engloba os dois coquetéis aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Um medicamento, aprovado em maio, combina dois anticorpos monoclonais, o bamlanivimab e o etesevimab. Já o coquetel aprovado em abril, conta com
os anticorpos monoclonais casirivimab e imdevimab.

As vacinas contra a COVID-19 foram desenvolvidas com a intenção de ativar o sistema imune, incluindo o incentivo à produção de anticorpos com capacidade de neutralizar o vírus e impedir que a doença evolua para quadros graves. No caso da CoronaVac, 85% dos pacientes que receberam a vacina produziram anticorpos neutralizantes, conforme aponta estudo realizado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Quando o paciente é vacinado, isso induz uma resposta imune direcionada aos antígenos vacinais. Dentre os complexos mecanismos componentes dessa resposta, a produção de anticorpos é um deles e, em geral, o mais estudado e comumente avaliado devido à facilidade na sua dosagem.

Diversos tipos de anticorpos são formados nessa resposta, incluindo aqueles conhecidos como neutralizantes. O nome vem da capacidade de se ligar em estruturas, antígenos do vírus, impedindo a sua entrada nas células e a infecção. Ou seja, “neutralizando” o vírus. A grande maioria das vacinas desenvolvidas para a COVID-19 usa como antígeno indutor da resposta imune a proteína Spike (por exemplo a AstraZeneca e a Pfizer) ou o vírus inteiro inativado (CoronaVac).

Vale ressaltar que nem sempre isso ocorre em todos os pacientes e ainda não se sabem exatamente os motivos. Além dos anticorpos neutralizantes, existem outros mecanismos de proteção para os quais ainda não existem testes de avaliação no momento. Por essa razão, mesmo que o indivíduo não tenha formado anticorpos, não significa necessariamente que ele esteja desprotegido, mas, se os anticorpos foram formados, já é um bom indício de que houve uma resposta significativa do sistema imune e há grande probabilidade de não desenvolver quadros graves.

As pesquisas que vêm sendo feitas sobre o efeito protetor desses anticorpos neutralizantes trarão uma enorme contribuição no que diz respeito ao monitoramento da evolução da doença e, principalmente, no desenvolvimento de novos e eficazes tratamentos.

 

*Carlos Aita é médico patologista clínico e imunologista, responsável pela assessoria médica do laboratório DB Diagnósticos.

 

Fonte: Nicolli Oliveira

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