Do teste do cheiro aos exames laboratoriais


Quando era criança lembro-me vivamente de um médico examinando minha avó. Para meu espanto infantil, arregalei os olhos quando o vi cheirando a urina que ela acumulou no penico branco durante a noite. Muito tempo depois fiquei sabendo que este procedimento olfativo caracterizava cheiros relacionados com disfunções orgânicas. Em seguida, num silêncio sepulcral, o médico arregaçou as pálpebras da vó com os dedos polegar e indicador dispostos como uma pinça, e concluiu que não tinha anemia.

O espetáculo continuou com um comando sem contestação: - Abra a boca e diga Ahhhh!!!. O médico além de ver as profundezas da garganta e da boca examinava o hálito. Diversos cheiros emanados pela garganta diziam muito a respeito de doenças específicas do sistema gastrointestinal. As costas da minha avó também foram exploradas neste notável exame clínico. Sobre a camisola de cambraia de linho o médico encostou sua orelha esquerda e ordenou que respirasse e expirasse forte. Com certeza importantes alterações orgânicas seriam desvendadas pelo pavilhão auricular, e que mais tarde deu origem ao estetoscópio. E, finalmente, de posse de um martelinho o doutor deu duas ou três pancadinhas nos joelhos esquerdo e direito da minha avó. Feito isto, o médico anunciou solenemente para a plateia emudecida e preocupada: - A senhora está com infecção na garganta! Na sequência, determinou: Pincele esta garganta duas a três vezes ao dia com mertiolato!

Passaram-se anos e estas percepções foram substituídas por exames laboratoriais e de imagens, oferecendo mais suporte às avaliações supositivas. Inicialmente estas substituições foram lentas e contestadas. Até o final dos anos 60 do século passado muitos médicos acreditavam mais em suas avaliações clínicas do que em resultados laboratoriais e das imagens radiográficas. Havia nesta época divergências em relação aos resultados dos principais exames. Por exemplo, a glicosúria era avaliada por meio da visualização de mudança da cor da urina após reação química a quente, e as diversas fases de cor entre o âmbar e o marrom eram expressas em números de cruzes. Essas cruzes, entretanto, variavam de acordo com o humor e o conhecimento do analisador.

Por outro lado,os exames de fezes tinha mais crédito entre os médicos, tal eram as diversidades de vermes e ovos de parasitas que infestavam os intestinos das pessoas, principalmente daquelas que viviam no interior do Brasil e periferias das cidades. No início dos anos 70 as sociedades científicas internacionais vislumbrando os avanços de novas tecnologias laboratoriais, passaram a orientar formas de avaliarem com mais segurança os resultados dos exames.

Desta forma, surgiram procedimentos préanalíticos para coleta de sangue, urina, cultura microbiológica etc. Especificamente para coleta de sangue destacavam-se tipos de anticoagulantes e suas proporções, interferências de medicamentos nos resultados de alguns exames e, principalmente, o tempo de jejum do paciente. Milhares de pesquisas passaram a destacar que resultados confiáveis de todos os exames de sangue venoso requeriam jejum de oito a doze horas, conforme o tipo de análise solicitada.

Justificavam que exames realizados por reações que envolviam mudanças de cor, aglutinações e turvações, bem como aqueles que se faziam através de reações de antígenos e anticorpos (por exemplo, tipagem sanguínea ABO e Rh) sofriam influências de componentes alimentares, com destaques para sais minerais, gorduras e açúcares. Todo esse processo deu estabilidade nas relações entre resultados laboratoriais e suspeitas clínicas de patologias. Atônito, observo que, recentemente, empresas e sociedades de profissionais de laboratórios têm apoiado a liberação do jejum em exames de sangue, e pasmem, sem nenhuma fundamentação científica séria. O descrédito dos resultados de exames sem o devido jejum poderá desmontar toda a estrutura científica construída nestes últimos 60 anos.