O DNA da vida longa e saudável

Artigo de opinião: Professor Dr. Paulo César Naoum


Professor Dr. Paulo César Naoum 
Professor Titular pela UNESP
Diretor da Academia de Ciência e Tecnologia,
Acadêmico da ARLC
 
É de se admirar como o interesse por uma vida longa e saudável se espalhou entre os adultos em todo o mundo. Descobriram que hábitos pessoais e ambientes saudáveis são determinantes para obterem mais anos e até décadas em expectativas de vida.
 
Entre as notícias que nos atraem, destacam aquelas sobre pessoas que superaram a barreira dos 100 anos de idade e, ainda, mesmo centenários, atuaram intelectual ou culturalmente para o bem estar e desenvolvimento de nossas sociedades.
 
Um dos exemplos que destaco é o famoso arquiteto brasileiro Oscar Niemayer, que trabalhou ativamente até 104 anos, e faleceu prestes a completar 105 anos de idade. Poderia, talvez, ter vivido mais, se não tivesse sido tabagista inveterado.
 
É muito possível que as qualidades biológicas de Niemayer fossem extraordinárias que, associadas a vários fatores que desconhecemos em sua vida, permitiram esta invejável vida longa e produtiva. Biologicamente, todo ser humano é trilhonário, pois temos cerca de 100 trilhões de células.
 
Dentro de cada célula, há um núcleo com 23 pares de cromossomos e, em cada cromossomo, há uma extensa molécula de DNA. Pois bem, sob o ponto de vista científico está estabelecido que uma das causas biológicas relacionadas com a longevidade se chama telômeros.
 
Telômeros são proteínas que atuam como envoltórios que protegem os cromossomos e, consequentemente, as moléculas de DNA que estão em seu interior (figura 1).
 
 
Figura 1 – Um cromossomo, com a molécula de DNA em seu interior protegido por uma capa azul que é a extenção do telômero nas extremidades do cromossomo (em vermelho)
 
Quanto mais espessos forem os telômeros e mais longa as suas extremidades, os milhares de genes que compõe o DNA estarão mais protegidos, e os trilhões de células poderão viver mais tempo. Em pessoas que têm telômeros padrões, ou seja, expressiva parcela da população mundial, suas células se reproduzem em média 70 vezes, antes delas (as células) morrerem.
 
Por outro lado, as células de pessoas que têm telômeros mais espessos e extensos, ou seja, telômeros extraordinários, as células podem se reproduzirem até 100 vezes antes delas (as células) morrerem. Este fato contribui para maior conservação dos tecidos e órgãos, resultando num envelhecimento mais retardado e maior capacidade de recuperação de doenças.
 
Portanto, pessoas que têm telômeros extraordinários podem viver, em média, 20 a 30% mais que as outras que têm telômeros padrões. Há também pessoas que têm telômeros delgados, e estas padecem de envelhecimento precoce e dificuldade na recuperação de doenças, fatos que contribuem para lhes abreviarem o tempo de vida. Porém, não é só a qualidade do telômero que a faz com que uma pessoa tenha vida longa e saudável.
 
Há outros fatores que influenciam o micro-universo de cada pessoa: controle emocional, higiene, capacidade de defesa imunológica, ambiente e alimentação.
 
Neste sentido, há situações que desequilíbram este micro-universo, pois rompem os telômeros, expõe os cromossomos às agressões químicas ou físicas e, consequentemente, despedaçam estruturas das moléculas de DNA, conforme mostra a figura 2. 
 
 
Figura 2 – DNA rompido por radicais livres (simulação). Algumas bases nitrogenadas são perdidas, causando um tipo de mutação conhecida por deleção.
 
Três situações se destacam nesse sentido: gordura trans, ácido carbólico do fumo, e gases poluentes. Pessoas com telômeros extraordinários que poderiam chegar aos 110 ou até 120 anos de forma saudável, ao serem intoxicadas cronicamente por um ou mais dos três elementos acima destacados podem ter seu tempo de vida reduzido.
 
No mesmo raciocínio, pessoas com telômeros padrões, que poderiam chegar aos 80-90 anos de forma saudável, ao serem intoxicados pelos produtos acima, também podem ter seus tempos de vida reduzidos. As agressões aos telômeros, independente de suas qualidades, induzem o envelhecimento precoce, as lesões cardíacas e vasculares, a formação de células tumorais, além de causarem patologias neurodegenerativas.
 
Se nós não temos como escolher nossos telômeros, resta-nos, portanto, adotar hábitos saudáveis e ambientes não poluídos para darmos sequências à nossa longevidade.