POR FAVOR, LEIAM ATÉ O FIM


A contribuição dos Laboratórios de Análises Clínicas no auxílio ao diagnóstico e terapia de pacientes sempre foi certeira e incontestável. Essa situação remonta há alguns séculos, desde quando os magos de então descobriram o diagnóstico do diabetes, através da afinidade de espécies de formiga por urina que continha glicose.

A ciência laboratorial evoluiu de maneira extraordinária, até chegarmos aos laboratórios dos tempos atuais, aparelhados com excelentes equipamentos e avançados sistemas de gestão. O salto inicial foi patrocinado pelos incentivos que nossas sociedades científicas SBAC e SBPCML, ao instituírem seus programas de controle de qualidade externa, interna e acreditações. Estes, após, referendados de modo conceitual e legal pela ANVISA, através da RDC 302/2005, ao formalizar seu regulamento técnico.

O crescimento dos Laboratórios aconteceu de forma plena e assim tornaram-se os guias dos diagnósticos clínicos, de manutenções ou troca de terapias e definição dos critérios de alta hospitalar ou cura de enfermidades.

Importante citar que, com essa evolução, os exames laboratoriais multiplicaram-se a velocidade incrível. O alcance dos laboratórios abraçou praticamente todo e território nacional. É evidente que Laboratórios situados nos nossos mais longínquos rincões não conseguem realizar todas as listas de exames, ou por falta de solicitações médicas que tornem suas execuções viáveis ou pelo alto preço e o pouco uso de alguns equipamentos.

Para isto valem-se dos Laboratórios de apoio, aproximadamente seis no país, que são organizações de grande porte voltadas a realizar de forma maciça todos os tipos de exames com qualidade e excepcionais sistemas de informações que fazem retornar os laudos dos materiais enviados com a maior presteza possível.

Este é o sistema que perdurou no país, até pouco tempo em que os laboratórios, no geral vinham trabalhando com qualidade, boa resolutividade e satisfazendo às necessidades de todos os players envolvidos.

Novos entrantes no setor, com o advento da Biomedicina e a chegada dos Biólogos ao setor, todos a procura de novos ambientes de trabalho, o setor laboratorial inflou e acirrou uma concorrência altamente predatória.

Nos últimos cinco anos, o número de laboratórios aumentou de forma exponencial, a sobrevivência de muitos foi ameaçada e uma das saídas encontradas foi o rebaixamento vertiginoso dos valores dos exames, queda de qualidade e compradores de serviços, valendo-se da situação, tentando forçar os preços, mais, pra baixo.

Qualidade laboratorial não se faz com milagres, evidente. São requeridos indispensáveis conceitos técnicos para que os laudos não sejam apenas bonitos e “bem feitinhos”. Mas que, fundamentalmente, espelhem a realidade clínica dos clientes.

Descontos sobre a “antiga e venerável” tabela SUS, originada e mantida desde 1994, somente servem para apressar o desastre.

Concomitantemente, a tendência mundial de transformar o estabelecimento farmacêutico em serviço de saúde, com várias finalidades diagnósticas e terapêuticas, acarretaram algumas incongruências ao setor, e a intenção é a de que tudo possa ser realizado em Farmácias, pelo menos para as entidades que coordenam o setor. Nos EUA essa tendência está confirmada, com diversos exemplos já citados em textos anteriores. Calculam os experts que, de 60 a 70% das ocorrências em saúde possam ser resolvidas nesse nível de atendimento. Os demais enviados às instâncias de maior resolutividade.

Com essa atitude, seriam criadas novas modalidades de planos de saúde, que acolheriam um setor importante da população com renda média apropriada para custear esse tipo de atendimento.

Nesse conjunto de planificações, seriam incluídos os procedimentos laboratoriais.

Tudo leva a crer que a ANVISA não só encampou essa ideia, como a acolheu de braços abertos.

Ao propor a Consulta Pública CP912 - RDC 302, atropelou todos os ritos anteriores, ao criar apenas um novo texto, totalmente diverso do original, não oferecendo nenhuma chance de que se pudesse atualizar o atual que, diga-se de passagem, é muito bom, elogiado à época. Com algumas atualizações, poderia tornar-se perfeito.

Não foi o que aconteceu. Surgiu um novo texto de CP, abrindo novas possibilidades, entre elas a criação do SADT TAC, em substituição à denominação Laboratório. Por essa nomenclatura todos os estabelecimentos de saúde poderiam realizar testes laboratoriais, postos de enfermagem, consultórios e clínicas médicas, farmácias e até em mais alguns locais, bastando para isto que os Conselhos Federais Profissionais incluam essa atividade como permissível para seus pares.

O grande vetor para essa atividade seriam os Testes Laboratoriais Portáteis – TLPs, os chamados testes rápidos, por muitos alcunhados ”testes fáceis”, pois podem estar ao alcance e realizados por “qualquer um”.

 

Em época de pandemia, com estragos gerais à saúde populacional, movimentação de pessoas, finanças, traumas emocionais, perdas de trabalho e oportunidades, foram verificadas ineficiência e falta de qualidade para diversas marcas de TLPs para a pesquisa de anticorpos SARS CoV2.

Algumas delas, devolvidas pelos Laboratórios de Análises Clínicas que as adquiriram e, não conformes ao controle da qualidade interna, foram encaminhadas por seus vendedores a outras instituições, não laboratoriais que, sem nenhum tipo de controle e nenhum critério, liberaram laudos totalmente distantes das realidades clínicas.

Nada contra os TLPs , desde que possuam qualidade. Alguns são indispensáveis. Como, por exemplo, marcadores cardíacos em clínicas de urgência, emergência ou UPAs.

 

Entretanto, o setor laboratorial, não obstante aos excepcionais serviços prestados ao auxílio diagnóstico e terapias, deve entrar em auto prospecção, verificar suas não conformidades estratégicas, tornando seus serviços mais orgânicos, eficientes e rentáveis.

Não é possível admitir que numa cidade de aproximadamente 100 mil habitantes possam existir e funcionar cerca de 15 automações em hematologia, todas funcionando bem abaixo de suas capacidades. Situação igual ou parecida em cidades maiores ou menores, acontecendo o mesmo com equipamentos de bioquímica, imunologia, qualitativo de urina entre outros.

Existiriam rusgas tão avantajadas que possam resistir a uma central técnica, unificação de atitudes profissionais, éticas e de dinâmica de trabalho?

Não seria possível a conversa começar por uma reunião dos realmente interessados, em busca dos interesses comuns, muito mais importantes que eventuais desavenças?

Não seriam atitudes desse porte que poderiam mudar um sistema de trabalho, que possa abranger um número muito maior de exames, tanto em volume quanto em diversidade.

Ações e atitudes que poderiam mudar todos os aspectos da condução de um sistema indispensável, extremamente cobiçado por outros setores, que para tal atualmente não são legalizados.

O Laboratório de Análises Clínicas pertence a seus profissionais, habilitados e preparados para a condução de um sistema indispensável ao diagnóstico, em todas as suas fases.

Nada é mais importante do que uma introspecção para verificar que muitas não conformidades foram geradas pelo receio de olhar para fora, e esconder os olhos atrás das oculares dos microscópios, afastando-se da realidade atual.

Parcerias produtivas serão sempre mais eficientes do que concorrências predatórias.

 

Lamentável que setores da mais alta importância, umbilicalmente ligados e fornecedores aos sistemas de diagnóstico laboratorial, tenham aderido às tentativas dos novos entrantes.

 

Apenas um relato de uma realidade vivida por quase todos, inclusive por quem vos escreve.

 

DR. IRINEU GRINBERG

Ex Presidente da SBAC

 

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