Qualidade é primordial


A Ciência Laboratorial surgiu nos antanhos da Idade Média, quando os bruxos e magos, cientistas da época, verificaram a afinidade de formigas por urina que continha glicose. Dessa forma, nasceu o primeiro diagnóstico laboratorial de diabete. Em 1954 o Dr. Carlos Galli Mainini, em suas pesquisas em endocrinologia no Hospital Rivadavia em Buenos Aires, verificou que urina de gestante, quando injetada no dorso de um sapo macho, provocava produção de espermatozoides, que era verificada através de pesquisa por microscopia numa gota de urina. Este foi o primeiro teste laboratorial para a detecção de gestação.

Evidente que, entre a idade média, 1954, e os dias atuais muita coisa aconteceu. Ao início, a leitura visual das reações bioquímicas. Após, as avaliações quantitativas pelo colorímetro de Dubosc, após o fotoelétrico, espectrofotometria, e o surgimento das primeiras automações. Com essas ações, e outras que lhes sucederam, os sistemas de rotina laboratorial revelaram algumas fragilidades, pois nos diversos passos que a realização de um exame percorre, estão presentes diversas situações que exigem verificação permanente.

começar pela leitura da prescrição médica, com interpretação exata no laboratório, verificação da situação do cliente em relação aos preparos préanalíticos, coleta adequada do material, calibração dos equipamentos, qualidade da água reagente, verificação da corrente elétrica, liberação dos resultados, interfaciamento e entrega dos laudos aos interessados. Entretanto, nenhum laboratório que prima pela qualidade pode afirmar que seu trabalho encerra com a entrega dos laudos. Estes devem permanecer no sistema, com total rastreabilidade, para eventuais emissão de cópias, consultas, discussão da patologia do cliente em relação aos resultados e repetições de exames, se necessário, tudo com total rastreabilidade.

O conjunto de todas essas ações e atitudes, mais a verificação da qualidade interna (proin) e externa (proex) constituem o Controle de Qualidade Laboratorial. Essas ações são de cumprimento obrigatório, desde 2005, quando a ANVISA publicou, após muitas rodadas de discussões, a RDC 302. É possível afirmar, sem medo de errar, que daquele ano até agora, aconteceram incontáveis “cases” de sucesso na evolução da qualidade dos laboratórios existentes no país.

Em tempos atuais, nas maiores corporações laboratoriais, um tubo com sangue, para quase todos os tipos de exames rotineiros, percorre por esteiras, sem que ninguém o toque. A função dos profissionais é a de controlar eventuais falhas no sistema, e acionar os mecanismos de correção. Os resultados dos exames, lidos e interpretados em qualquer lugar onde existir algum dispositivo ligado à internet.

No entanto, como citado em textos anteriores, o resultado final da busca permanente por novas tecnologias, ou aprimoramento das já existentes e o aumento expressivo das taxas de longevidade acarretam, de forma retilínea e ascendente, a elevação dos custos em saúde, fazendo com que milhares de famílias tenham que abandoná-los e retornar ao SUS. Urge, portanto, a criação de sistemas de atendimento mais acessíveis, adaptáveis às incapacidades econômicas da população.

Uma delas, também já citada, será a da consulta farmacêutica. Valendo-se da capilaridade das farmácias, suas excepcionais localizações, abrangências como estabelecimentos de saúde, o preparo e incentivo que a profissão farmacêutica tem obtido através de avanços significativos nas graduações, e pós graduações, que os habilitam e incluem os conhecimentos necessários a resolver 60 a 70% das ocorrências. As demais, de imediato, encaminhadas a outras instâncias, previamente contratadas.

Previsto também imunizações e realização de exames laboratoriais através Testes Laboratoriais Portáteis, os TLPs. A utilidade dos TLPs é indiscutível e em várias situações são essenciais. A grande maioria é representada pelos testes cromatográficos ou similares, de leitura visual em tiras reagentes. Entretanto, ocorre uma invasão de marcas desconhecidas, de origem não bem esclarecidas, ante a inexigência de controles de qualidade interna e externa para todos eles.

Mesmo àqueles realizados em super mercados, shoppings e até farmácias, quando o sangue a ser analisado é colocado em dispositivos de leitura e laudado à distância, através de uma central de informática, que não possui nenhum informe ou controle em relação ao que acontece no momento do atendimento e coleta do material. Vetados pela ANVISA, e liberados, mediante liminar, através de informação de parecer que, de forma equivocada, utilizou interpretações confusas das RDCs 44 e 302.

Estes procedimentos poderão inviabilizar tanto os TLPs, como os diagnósticos obtidos. Portanto, cabíveis novas ações judiciais para findar os efeitos dessa decisão provisória. Equipamentos altamente confiáveis, executáveis à beira do leito ou, porque não?, em estabelecimentos farmacêuticos, com alta sensibilidade e especificidade, sequer foram mencionados, pois necessitam os mais avançados sistemas de controle de qualidade, como todo e qualquer teste laboratorial confiável.

A instituição Laboratório de Análises Clínicas jamais deixará de existir, e nunca perderá a sua importância. Entretanto, deverá estabelecer novos focos e atitudes, ser o ponto moderador e controlar a qualidade dos exames rotineiros ou urgentes, realizados em quaisquer estabelecimento de saúde. Será, de forma permanente, avalista da qualidade interna e externa e do desempenho dos testes. Sua equipe técnica terá a incumbência de realizar essa função, resolver as não conformidades, esclarecer e orientar os profissionais dos estabelecimentos de
saúde à solução de todas e quaisquer dúvidas ou não conformidades existentes.

Tanto de execução, como de avaliação e interpretação dos resultados. Este mesmo Laboratório deverá executar as demais rotinas laboratoriais, bem como os procedimentos mais sofisticados, tais como testes genéticos, moleculares, provas de compatibilidade e todos aqueles procedimentos que não se enquadrem
como passíveis de execução imediata. Serão muitos e cada vez mais revestidos de maior complexidade e acurácia.

A RDC 302, quando lançada em 2005, já previa esses novos momentos, tanto que, de forma sábia, já regulava a execução dos TLPs e os incluía sob a responsabilidade de laboratório clínico. Entretanto, em recentes movimentos, as inovações na forma de atendimento primário, crescimento da população a ser assistida, remetem a clamores para que sejam criados novos regramentos visando a uma regulação mais branda para os TLPs.

Esses procedimentos, de forma inequívoca, são laboratoriais, portanto devem estar regulados como os demais exame de análises clínicas. Caso contrário, sem os controles fundamentais
e sem finalidade diagnóstica, fatalmente estarão enquadrados como exames de segunda linha. Os Laboratórios de Análises Clínicas tradicionais, convencionais e sempre presentes, possuem o compromisso inalienável com as realidades técnicas e científicas e, em nenhum momento, serão coniventes com a existência procedimentos laboratoriais secundários.

NOSSOS PARCEIROS