Raça e racismo - Como surgiu o racismo...e no Brasil? - texto 4

(Tópicos retirados do Livro: Raça / Racismo: Relações com Doença Falciforme e Talassemia)


No final do século XV e início do XVI, a Europa estava no seu apogeu, como “dona dos mares e do dinheiro. O homem branco estava no pedestal, sendo o senhor do mundo”. Imbuídos dessa ideologia, os conquistadores europeus – especificamente espanhóis e portugueses – iniciaram a colonização da América recém descoberta, implementando um sistema produtivo baseado na mão de obra escrava. Assim, as populações indígenas foram escravizadas e exterminadas, o que resultou na diminuição da mão de obra escrava indígena, e para substituí-la, os europeus voltaram os olhos para a África, dando início à escravidão negra.

Os governantes, intelectuais da época com o beneplácito da Igreja Católica, que comungavam o ideário de superioridade dos brancos europeus sobre os demais povos, fundamentaram o racismo antinegro, ao afirmar que: “Não se pode admitir a ideia de que Deus, que é um ser infinitamente sábio, tenha colocado, sobretudo uma alma boa, em um corpo completamente negro”. Assim surgiu o Racismo Antinegro, que condenava além da cor negra a inferioridade cultural. Em 1856 Joseph Arthur de Globineau na publicação do seu livro “Moral and intelectual diversity of races”, passa a dar validade “científica” a ideologia racista e a superioridade da raça branca, porque os brancos eram destinados a governar sobre os demais povos.

Foram as teorias de Globineau que tiveram grande influência no desenvolvimento e nas políticas racistas da Europa, especialmente adaptadas aos interesses nazistas (1). A África passou a sofrer durante séculos uma espoliação de traficantes de escravos, pelos governos europeus. No Brasil o racismo tem raízes na escravidão, que foi a “anulação dos valores da cultura negra”, feita pelos colonizadores com o objetivo de legitimar a dominação.

Entre 1550 a 1850, foram deportados para o Brasil mais de 4 milhões de africanos. A força do racismo fez com que a escravidão dominasse a história do Brasil por mais de três séculos, sendo este o último país, no mundo, a abolir a escravidão através da Lei n0 851 de Eusébio de Queiroz, com data de 4 de setembro de 1850. Após a lei, a classe dominante brasileira optou pela imigração de europeus brancos, com o intuito de “branquear” o país porque através da miscigenação poderia trazer “elementos étnicos superiores”. Mesmo após a lei, a raça negra ficou condenada a exclusão e discriminação, pois a ideologia racista permaneceu e assim pode-se concluir que foi “a escravidão quem inicialmente construiu o Brasil”.

A substituição da mão-de-obra escrava significou a redefinição do lugar do negro na sociedade: “de escravo a marginal”, e assim surgiu o “racismo de exclusão”, significando que os negros livres não serviam para trabalhar. A posição de marginalidade do negro em relação a esta nova configuração social, e a “inadaptação” em relação com o trabalho, foi considerada uma inferioridade cultural da raça negra, sobrando para eles as “ocupações improdutivas” (serviços domésticos, biscates, ocupações subalternas, etc.). Deste modo nascia u’a massa de herdeiros de tudo aquilo de negativo que aqueles que estavam no poder do Império e da República legaram como heranças econômica, política, social e cultural para os escravos e ex-escravos (2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11,12).

Venturi e Paulino (13) sobre o preconceito racial afirmaram que: “os brasileiros sabem haver, negam ter, mas demonstram, em sua imensa maioria, preconceito contra negros”. Rodrigues (14) denomina este fenômeno de “Racismo Cordial”, afirmando que esta atitude seria uma maneira de não ofender mais aqueles que se discrimina.

Referências
1) Globineau JA. Moral and intellectual diversity of races. J.B. Lippincott & Co, Philadelphia, p.337-338, 1856.
2) Carvalho FM. O delírio racista. Folha de São Paulo, São Paulo, 23 dez. 1984. Folhetim, n.414
3) Davidoff C. Bandeirantismo: verso e reverso, (Coleção Tudo é História, 47), 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 1986.
4) Freitas D. Raízes históricas do racismo brasileiro, D.O. Leitura, São Paulo, v.4 (42): 12-13, 1985.
5) Kalckmann S, Santos CG, Batista LE, et al. Racismo institucional: um desafio para a equidade no SUS? Saúde Soc São Paulo. 16 (2): 146-155, 2007.
6) Sivanandan A. Los pobres son los nuevos negros. La Fogata Digital, Buenos Aires, sep. 2002. Disponível em: www.lafogata.org/02inter/09internacional/pobres,htm Acesso em 10 de agosto de 2005.
7) MPF. Brasil / Ministério Público Federal, Lei n0 581, de 4 de setembro de 1850. Lei Eusébio de Queirós. Estabelece medidas para a repressão do tráfico de africanos neste império. Disponível em: www.prr1.mpf.gov.br/nucleos/nucleo_criminal Acesso em 16 / março / 2007.
8) Alencastro LF. As populações africanas no Brasil. Texto redigido para o capítulo relativo as “Populações africanas no Brasil”, que integrou o plano Nacional de Cultura, apresentado no Congresso em 15 / 12 / 2006, pelo Ministro da Cultura, Gilberto Gil. http://www.funag.gov Acesso em 18 de janeiro de 2007
9) Adorno TW, Frenkel-Brunswik E, Levinson D & Sanford R N. The authoritarian personality, New York: Harper & Row. 1950.
10) Camino L, Silva P,Machado A, Pereira C. A face oculta do racismo no Brasil: uma analise psicossociológica. Revista Psicologia Política, 1 (1): 13-36, 2001.
11) Dollard J, Doob L, Miller N, Mowrer O, Sears R. Frustation and Agression. New Haven, CT, Yale University Press, 1939.
12) Hovland CL, Sears R. Minor Studies of Aggression: Correlation of Lynchings with Economic Indices. Journal of Psychology. 9, 301-310, 1940.
13) Venturi G e Paulino MF. Pesquisando preconceito racial. Em C. Turra e G. Venturi, (Orgs.). Racismo Cordial: A mais completa análise sobre o preconceito de cor no Brasil. Editora Ática. São Paulo: 84-95, 1995.
14) Rodrigues F. Racismo Cordial. Em: C Turra e G.Venturi (Orgs.). Racismo Cordial: A mais completa análise sobre o preconceito de cor no Brasil. Editora Ática. São Paulo: 11-56, 1995.

 

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