Raça e racismo - texto 3

Uso da palavra raça: ambiguidade e consequências


(Tópicos retirados do Livro: Raça / Racismo: Relações com Doença Falciforme e Talassemia) 

AMBIGUIDADE DA PALAVRA RAÇA:

Inicialmente o conceito de Raça foi usado para referir aqueles que falavam um idioma comum, e posteriormente para identificar filhos de uma mesma nação. No século XVII o uso do termo Raça, era para relacionar os traços físicos observados nas pessoas, sendo que tal uso gerou hierarquias que favoreciam a diferentes grupos étnicos. A partir de antropólogos e fisiologistas do século XIX, na segunda metade do século XX, as associações do conceito de Raça com ideologias e teorias se desenvolveram, e o uso da palavra “Raça” se tornou um problema, pois a palavra “Raça” muitas vezes, na dependência do contexto, vinha sendo substituída por outras palavras que eram menos ambíguas e emocionalmente menos carregadas de preconceitos, tais como populações, povos, grupos ou comunidades étnicas.

Historicamente, na área das Ciências Biológicas e Sociais os conceitos de Raça Humana são ambíguos e sem consenso, causando controvérsia, e a Não Existência de Raças Humanas está apoiada na Pequena Variabilidade Genômica entre os grupos humanos dos diferentes continentes (1, 2, 3, 4, 5).

CONSEQUÊNCIAS DA PALAVRA RAÇA:

questionamento do conceito de raça começou por Montagu, que em 1942 publicou o livro The Fallacy of Race (6), que rejeitava qualquer artigo científico para o conceito de raça, declarando que raça é um mito biológico. No final do século XX a Associação Norte-Americana de Antropologia declarou oficialmente que “variações físicas da espécie humana não têm outro significado além do que lhe é imputado socialmente” (7). Por este motivo biólogos, sociólogos e antropólogos, desautorizaram o uso das categorias das Raças em Seres Humanos, para acabar com o Racismo e propuseram que se passasse a usar o termo “População” para se referir a grupos razoavelmente isolados, endogâmicos (ou seja consanguíneos), que poderiam até apresentar entre eles alguns traços genéticos.

A ideia de usar a palavra “População” para os humanos, seria extremamente útil e ao mesmo tempo, evitaria as implicações psicológicas, morais e intelectuais do antigo termo Raça, que não tem o menor respaldo científico quando usado em Seres Humanos (8, 9). O Racismo é um dos pilares da construção da modernidade e também da construção de uma hierarquia populacional escalonada, em que algumas vidas passam a ter politicamente mais valor do que outras. A “coisificação” do ser humano, que é própria do Capitalismo, do aniquilamento da integridade moral das populações, os humanos passam a ser peças de produção substituível, pois a acumulação de bens é o fim que prevalece.

Sem a Racialização o processo Colonial e a Hierarquização Política e Econômica teriam maiores dificuldades de serem apreendidas e instituídas (10, 11). Para Munanga (12) os cientistas sociais, embora concordem com as conclusões sobre a inexistência científica de raça, justificam o seu uso como realidade social e política, sendo que Raça é uma categoria social de dominação e exclusão.

Segundo a antropóloga Avtar Brah (13), a Racialização do poder opera através dos corpos, ou seja, este discurso e essa representação são indissociáveis do poder político e econômico que constituem. Sem a Racialização, o processo Colonial e a Hierarquização Política e Econômica teriam maiores dificuldades de serem aprendidas e instituídas. Isto significa que através do Racismo a Hierarquia e a Opressão agem de modo indissociável para a manutenção da estrutura de Dominação. 


Referências
1) Keita SOY, Kittles RA, Royal CDM, et al. Conceptualizing human variation. Nature Genetics, 36 (11s): S27-S20, 2004.
2) Gould, SJ. A falsa medida do homem. São Paulo: Martins Fontes, 1991. (Coleção ciência aberta) Tradução de: Gould, Stephen Jay. The mismeasure of man. New York: W. W. Norton, 1981.
3) Kamel, A. Não somos racistas: uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.
4) Pena, S. D. J. (org.). Homo Brasilis: aspectos genéticos, linguísticos, históricos e sócioantropológicos da formação do povo brasileiro. Ribeirão Preto: FUNPEC-RP, 2002.
5) Stelling LFP. “Raças humanas” e raças biológicas em livros didáticos de Biologia de ensino médio. Tese de Mestrado, 2007. Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense. Niterói.
6) Montagu A. man’s most dangerous myth: The fallacy of race. 6th edition. AltaMira Press 1997.
7) Miranda M. Classificação de raça, cor e etnia: conceitos, terminologia e métodos utilizados nas ciências da saúde no Brasil, no período de 2000 a 2009. Tese de Mestrado. Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca – ENSP. Fiocruz. Rio de Janeiro. 2010.
8) Appiah, Kwame A. Na casa de meu pai. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
9) Guimarães ASA. Como trabalhar com “raça” em Sociologia. Educação e Pesquisa, São Paulo. 29 (1): 93-107, 2003.
10) Mbembe A. Critica da Razão Negra: Antígona: Lisboa, 2014.
11) Mbembe A. Necropolítica. Seguido de El Gobierno Privado Indirecto. Barcelona: Melusina, 2011.
12) Munanga K. Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia. Palestra proferida no 30 Seminário Nacional Relações Raciais e Educação. PENESB. Rio de Janeiro: PENESB 2003.
13) Brah A. Diferença, diversidade, diferenciação. Cadernos Pagu (26): 329-376, 2006.

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