Raça e racismo - texto 6: é necessária a categorização racial na área de saúde?

(Tópicos retirados do Livro Raça / Racismo: Relações com Doença Falciforme e Talassemia)


A Categorização ou Classificação Racial geralmente é um dos itens das fichas de identificação na área de saúde. Entretanto nem todos os profissionais da Área de Saúde, concordam. Alves (1) refere vários artigos científicos em que alguns autores possuem argumentos a favor e outros que são contra a Categorização Racial na Área de Saúde.

A Favor da Classificação Racial em Medicina, os principais argumentos utilizados para defender esta existência são:

a) As diferenças raciais continuam a ser importantes para a investigação de fatores não genéticos de doenças, uma vez que estão amplamente reconhecidas às diferenças em relação à qualidade de vida, riscos de adquirir determinadas doenças, resposta a tratamentos e acesso a serviços de saúde entre grupos populacionais distintos como resultado da estratificação social. Até 1994, existiram cerca de 2.500 artigos científicos que eram indexados em Medline usando classificações raciais ou étnicas (2, 3, 4, 5).

b) O uso de raça e ou/etnia é importante em estudos para avaliar alocação de recursos de saúde para grupos populacionais menos favorecidos (4).

c) O conhecimento da ancestralidade pode facilitar o teste diagnóstico para mutações específicas que são mais prevalentes em determinados grupos, e deste modo facilitar o diagnóstico e o tratamento (6).

d) O uso de categorias raciais minimizaria, de forma democrática, as diferenças na alocação de recursos, política e uso de serviços de saúde com um tratamento igual baseado em necessidades iguais (7).

Contra a Classificação Racial em Medicina, os autores defendem o abandono desta classificação, com os seguintes argumentos:

a) Ausência da evidência científica, tanto antropológica como genética, de que Raça seja uma característica biológica. A variação genética no interior de uma população pode ser maior do que a variação genética que distingue populações diferentes (8, 9, 10, 11).

b) Ausência de associações entre as classificações raciais baseadas em traços físicos e marcadores biológicos de doenças ou efeitos terapêuticos de medicamentos. A aparência física é determinada por um pequeno número de genes, sendo o resultado de adaptações a determinadas condições geográficas. Não é possível se associar traços físicos a um significado biológico (12, 13).

c) Raça é mais uma maneira de classificar humanos com base em conceitos sociais, políticos, étnicos, mutantes e geralmente mantidos por uma ideologia racial (13).

d) Independente da classificação racial utilizada, a miscigenação facilitada pela quebra de barreiras geográficas e culturais irá diluir cada vez mais as possíveis diferenças atribuídas as raças (1).

e) Alguns autores têm proposto a exclusão da classificação racial e ou étnica das pesquisas médicas, alegando que além da falta de base genética para o uso destas classificações, elas servem apenas para perpetuar discriminação, preconceito, marginalização e subjugação. Para estes pesquisadores a classificação racial somente teria indicação quando para estudar o impacto do Racismo ou quando para estudar a desvantagem cultural e social no acesso e uso de serviços de saúde (14, 15). 

f) No Brasil, não existe nenhum grupo humano que seja Racialmente Puro, pois as populações brasileiras contemporâneas são o resultado de um longo processo de miscigenação que vem variando, e se ampliando, com o passar dos tempos. A união entre imigrantes europeus e brasileiros apenas alterou o Fenótipo, porque a População Brasileira já teve desde o início um Fenótipo Mestiço e continua ampliando o Fenótipo Mestiço (16).

 

Referências: 

1) Alves C, Fortuna CMM, Toralles MBP. A Aplicação e o Conceito de Raça em Saúde Pública: definições, Controvérsias e Sugestões para Uniformizar sua Utilização nas pesquisas Biomédicas e na Prática Clínica. Gaz. Med. Bahia. 75:1 (Jan-Jun): 92-115, 2005. 

2) Ahdieh L, Hahn RA. Use of terms “race”, “ethnicity” and “national origins”: a review of articles in the American. Journal of Public Health, 1980-1989. Ethn Health 1: 95-98, 1996.

3) Jones CP, LaVeist TA, Lillie-Blanton M. “Race” in the epidemiologic literature: an examination of the American Journal of Epidemiology, 1921-1990. Am J Epidemiol 134: 1079-1084, 1991.

4) Kaufman JS, Cooper RS. Considerations for use of racial / ethnic classification in etiologic research. Am J Epidemiol. 154: 291-298, 2001.

5) McKenzie KJ, Crowcroft NS (Editorial). Race, ethnicity, culture and science. BMJ 309: 286-287, 1994.

6) Burchard EG, Ziv E, Coyle N, et al. The importance of race and ethnic background in biomedical and clinical practice. N Engl J Med 348: 1170-1175, 2003.

7) Rathore SS, Krumholz HM. Differences, disparities, and biases: clarifying racial variations in health care use. Ann Intern Med, 141: 635-638, 2004.

8) Bamshad MJ, Wooding S, Watkins WS, et al. Human population genetic structure and inference of group membership. Am J Hum Genet. 72: 578-589, 2003.

9) Barbujani G, Maganini A, Minch E, Cavalli-Sforza LL. An apportionment of human DNA diversity. Proc Nat Acad Sci (USA). 94: 4516-419, 1997.

10) Lewontin RC. The apportionment of human diversity. Evol Biol. 6: 381-392, 1972.

11) Long JC, Kittles RA. Human genetic diversity and the nonexistence of biological races. Human Biology 75: 449-471, 2003.

12) Angier N. Do races differ? Not really, genes show. New York Times. August 22, f1, 2000.

13) Parra FC, Amado RC, Lambertucci JR, et al. Color and genomic ancestry in Brazilians. Proc Nat Avad Sci (USA). 100: 177-182, 2003.

14) Collins FS. What we do and don’t know about ‘race’, ‘ethnicity’, genetics and health at the dawn of genome era. Nat Genet. 36 (11 Suppl): S13-15, 2004.

15) Royal CF, Dunston GM. Changing the paradigm from “race” to human genome variation. Nat Genet. 36 (11 Suppl): S5-7, 2004.

16) IBGE / Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios. 27: 1-125, 2006.

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