Sangue brasileiro


As transfusões de sangue existem há séculos, porém, somente em 1900, com a descoberta do sistema sanguíneo ABO pelo médico Karl Landsteiner, foi possível entender porque o sangue do ser humano diferenciava entre as pessoas com propósitos de transfusões. Na primeira grande guerra mundial (1914-1918) as transfusões tiveram efetiva importância para salvar vidas e este fato estimulou suas aplicações em cirurgias, surgindo, então, diversos desafios. Uns desses desafios foram os contaminantes sanguíneos com destaques para as bactérias da sífilis, os tripanosomas da doença de Chagas e o vírus da hepatite B. Até os anos 70 os doadores eram remunerados e, assim, criou-se uma população que vivia da doação de sangue composta por pessoas pobres, indigentes ou doentes, todas com altos índices de sangue contaminado.

Com o aumento do uso de sangue quer seja como reposição em cirurgias ou para tratamento de patologias, houve a necessidade em se coletar mais sangue. Nesta época surgiu a indústria da coleta de sangue, dominado por empresas captadoras de sangue que pagavam pouco aos doadores e cobravam caro para vendê-lo aos bancos de sangue.

Ainda nos anos 70, descobriu-se que a transfusão de sangue total (glóbulos vermelhos e plasma) poderia ser melhorada através da separação destes dois componentes: glóbulos vermelhos e plasma. O plasma enriqueceu sobremaneira as indústrias farmacêuticas quando estas descobriram que era possível extrair substâncias importantes como a albumina, globulinas e fatores de coagulação. Estes componentes passaram a ser úteis no tratamento de queimaduras graves, de hemofílicos, de pessoas com baixa imunidade, entre outros, e estes produtos passaram a ser comercializados a preços exorbitantes. Os glóbulos vermelhos, por sua vez, têm sido usados principalmente para tratar anemias.

Em 1975 o governo federal regulamentou a coleta e distribuição de sangue no Brasil, porém houve muita resistência dos proprietários de bancos de sangue particulares, pois estes teriam que obedecer a regras rígidas de segurança. Por outro lado, os grupos que dominavam as coletas remuneradas também passaram a fazer lobby político para evitar que as regras fossem aplicadas. Nesta época, o médico pernambucano Luiz Gonzaga dos Santos apresentou ao governo uma proposta para o controle da qualidade do sangue por meio de fundações gerenciadoras de coleta e distribuição de sangue com qualidade, que posteriormente seriam conhecidas por hemocentros. Os dois primeiros hemocentros foram instalados no nordeste, Pernambuco (HEMOPE) e Ceará (HEMOCE), pois nas regiões sul e sudeste do Brasil os donos do sangue não admitiam o controle do governo. Com o surgimento do vírus HIV e a crescente contaminação do sangue com o vírus da hepatite C (na época conhecida como hepatite não-A e não-B), o ministério da saúde do governo Figueiredo agiu com rigor contra o cartel do sangue dos estados dos sul e sudeste, e impôs a criação das fundações hemocentros nas capitais e principais cidades do Brasil, com rígidas regras administrativas e de controle de qualidade do sangue.

Certas ações impositivas às vezes são necessárias para desmantelar cartéis e máfias. Por essas razões, o Brasil está entre os países com o mais eficiente controle de sangue em todo o mundo.