A pneumologista Margareth Dalcolmo fala da importância do teste IGRA como auxiliar no diagnóstico de tuberculose latente, agora incorporado ao SUS

Em entrevista exclusiva para a Labornews, a pesquisadora da Fiocruz explica que o teste não estará disponível em larga escala e conta quais as pessoas que estarão habilitadas a se beneficiar


Labornews - O que é a Tuberculose latente?

Dra. Margareth Dalcolmo - A tuberculose latente é uma forma de contato com a doença. Então, num local de alta prevalência como o Brasil, onde temos aproximadamente 73 mil casos novos a cada ano, nós sabemos historicamente que é estimado que um terço da população brasileira seja infectada pelo bacilo da tuberculose. Infectado não quer dizer doente, e sim que teve contato com a doença, na familia ou no trabalho, ou no transporte coletivo. Existem situações que chamamos de risco relativo. Então existem pessoas que portadoras de uma infecção latente por tuberculose têm um risco relativo, isto é, uma probabilidade de desenvolver doença ativa. E dentre essas, é uma das razões pelas quais nós nos manifestamos e participamos da elaboração da Nota Técnica enviada à CONITEC (COMISSÃO NACIONAL DE INCORPORAÇÃO DE TECNOLOGIAS NO SUS) para incorporação ao SUS dos testes IGRA, que são os testes que medem a liberação de interferon gama pela pessoa. O interferon gama é aquele que mostra se a pessoa teve ou não teve, e em que quantidade, contato com a tuberculose, e portanto se ela é portadora ou não de infecção latente. 

Labornews - O que é o teste IGRA?

Dra. Margareth Dalcolmo - O teste IGRA, que foi aprovado, existe no Brasil disponível, é o QuantiFERON Gold. Existe um outro que se chama EliSpot. Mas o que nós temos no Brasil é o QuantiFERON Gold, feito pelos laboratórios hoje oferecidos na rede privada e na rede pública apenas naqueles locais que desenvolvem pesquisa clinica.

Labornews - Por que o teste IGRA é importante?

Dra. Margareth Dalcolmo - A tuberculose latente é considerada hoje universalmente, a grande chave para o controle da transmissão da doença, ou seja, nós precisamos impedir que a pessoa infectada fique doente. E a melhor maneira de fazer com que isso não ocorra é tratar a infecção latente. Foi feito um grande investimento nos ensaios clínicos que testaram, probabilidades outras, além da Isoniazida 300 mg por dia, que já é algo há bastante tempo conhecido no Brasil, já fazemos isso há muito tempo, para aquelas pessoas que até então testassem positivas nos testes ditos tuberculínicos. É aquele teste que se faz no braço esquerdo, convencionalmente chamado inoculação da proteína tuberculínica, que vai fazer uma reação cutânea de hipersensibilidade retardada. Então é a aplicado e lido após 72 horas. Uma reação tuberculina positiva é considerada quando esse resultado é acima de 5 ml na medição local. O teste tuberculínico tem vantagens e desvantagens. É relativamente barato, mas exige duas idas da pessoa ao local, por que ela deve ir para aplicar e depois voltar 72 horas depois. E esse teste sobretudo sofre muita alteração no Brasil, porque temos uma cobertura enorme de população pela vacina BCG, e então o ponto de corte de interpretação é diferente. Então é 5 ml e 10 ml ou mais naquela pessoa vacinada com BCG. Todos os brasileiros que nasceram depois de 1976 até hoje são vacinados. 

Os testes IGRA, ao contrário, medem um outro princípio, têm uma especificidade muito alta e uma sensibilidade também muito alta, então eles são capazes de detectar - salvo em situações muito excepcionais. Ao contrario dos testes tubercuinicos, que sofrem a ação não só da vacina BCG, mas por exemplo também dos pacientes que tomam corticoides por muito tempo, os pacientes que têm imunodepressão, como por exemplo as pessoas vivendo com HIV, os pacientes em terapia para câncer, e as gestantes, não reagem ao PPD, tudo isso pode gerar um resultado falso negativo. Os testes IGRA não tem nenhuma dessas inconveniências, e hoje eles estão validados inclusive para crianças acima de 2 anos de idade. Isso é recente e foi uma grande conquista.

Labornews - Qual é hoje o grande desafio?

Dra. Margareth Dalcolmo - O nosso grande desafio é tratar a infecção latente, detectar a infecção precocemente e tratá-la. Para isso vários esquemas foram desenvolvidos e hoje estamos também num momento importante no Brasil com a aprovacão da rifapentina (derivado da rifampicina) q vai permitir tratamento da infecção latente - quer detectada pelos testes PPD quer pelos testes IGRA.

Labornews - Quais as pessoas que farão o teste IGRA no SUS?

Dra. Margareth Dalcolmo - Essa aprovação no SUS para nós é muito importante. Ela não é à larga, foi aprovado para algumas situações particulares: existe um grupo de pessoas que se tornou um grande risco cada vez maior de desenvolver tuberculose ativa sendo portador de infecção latente. São as pessoas portadoras de doenças imunomediadas, de diversas especialidades, que vão usar um grupo enorme de medicamentos chamados os imunobiológicos. Por exemplo, na gastroenterologia, a doença de Crohn e a enterocolite ulcerativa; na reumatologia, a artrite reumatoide, a espondiloartrite e a artrite reumatoide juvenil; na dermatologia, a psoriase e a artrite psoriásica. Essas doenças são candidatas aos medicamentos imunobiológicos, sobretudo os inibidores de TNF Alfa (substância que protege a pessoa portadora de infecção latente, proteína que sustenta o granuloma que é a estrutura cicatricial gerada pelo contato com o bacilo da tuberculose). O inibidor do TNF alfa vai atuar destruindo o granuloma, impedindo a formação celular que compõe o granuloma. Então isso torna o paciente que já é infectado, que ja tem sua cicatrizinha no pulmão, ele vai desenvolver tuberculose, que é gravíssima nesses pacientes, muitas vezes extra pulmonares, com formas de difícil tratamento. Temos uma quantidade enorme de casos no nosso serviço, na Fiocruz. 

Então havia uma necessidade grande de ter um teste que detectasse precocemente toda aquela pessoa candidata ao uso de imunobiológico. Qualquer que seja ele. Então esse é o racional que nos levou a submeter à Anvisa um pedido de aprovação, por que esses testes ainda são caros. Na rede privada custa por volta de 500, 600 reais o que é muito difícil para ser pedido para muitos pacientes que nós atendemos no SUS. É inclusive um teste difícil de ser feito, tem de ser feito em locais de referência, pelas questões mesmo de manejo do próprio teste, que exige laboratório de boa qualidade.

Esse teste já está disponível na rede privada aprovada há vários anos, e finalmente foi colocado em consulta pública e aprovado para utilização no SUS. A prioridade dos testes IGRA no SUS, então, é para pacientes candidatos a transplante de órgão, de uso de imunobiológicos, que pertencem a essas categorias as quais eu me referi das três especialidades. 

Não se aplica muito na nossa especialidade, pneumologia, para pacientes portadores de asma grave, por que os biológicos que são usados são inibidores de outras interleucinas que não tem nada a ver com a tuberculose e nem aqueles que são usados, por exemplo, para tratamento de câncer. Hoje existe um número enorme usado na oncologia mas esses também não estão relacionados nem a uma redução de TNF Alfa nem modificação de imunidade celular levando a um eventual maior risco de desenvolver tuberculose doença, sendo portador de forma latente de doença. 

 

 

 

NOSSOS PARCEIROS

Nós protegemos seus dados

Saiba como usamos seus dados em nosso Aviso de Privacidade e Termo de Uso. Ao clicar em “Aceitar”, você concorda com os Termos de uso e a Política de Privacidade da LaborNews.