A terceirização pode ser questão de sobrevivência



Dr. Wagner Maricondi

Ela pode até ser uma necessidade para tornar viável o negócio, mas este fato não exclui a decisão técnica e comprometimento sobre o serviço prestado. Esta é a opinião do Dr. Wagner Maricondi, médico responsável pelo Laboratório Médico Dr. Maricondi, especialista em hematologia e patologia clínica, e fundador do Grupo Maricondi. Para ele, custos não podem jamais ser o único critério na hora de optar pela terceirização.

Apesar do grande desenvolvimento experimentado pelo setor de análises clínicas nas últimas décadas, o seu crescimento foi de certa forma limitado pelo achatamento dos preços pagos tanto pelos governos quanto pelas operadoras de saúde. É o que acredita o Dr. Maricondi: “Os pequenos, sem nenhuma capacidade para investir, e os médios, com capacidade limitada, buscam, incansavelmente, alternativas para atender de forma eficiente sua clientela, sendo a terceirização de seus serviços a alternativa ideal para preenchimento dessa lacuna.” A tendência, no entanto, é que os pequenos sigam se dedicando à coleta e os médios terceirizem algumas de suas rotinas. No futuro, os grandes podem acabar incorporando os médios. “Assim, a terceirização é uma necessidade, pois se não há condições para implantar determinados testes na rotina, a opção mais viável é terceirizar, mas quando crio demandas importantes desperto o interesse dos grandes.”

Desde março deste ano, a possibilidade de terceirização das atividades-fim ampliou as perspectivas, mas trouxe com ela regras que devem ser levadas em conta antes de estabelecer novas parcerias. Segundo Maricondi, além de conhecer a fundo as rotinas e a capacidade técnica para quem se pretende terceirizar, “há uma análise muito importante que deve ser feita atualmente, após a sanção feita em 31 de março pelo governo federal, da legalização mais ampla da terceirização, a empresa contratante tem corresponsabilidade com a atividade da contratada, ou seja, o laboratório que terceiriza é subsidiariamente responsável pelas obrigações trabalhistas e previdenciárias no período em que o trabalhador terceirizado lhe prestou serviço. Os laboratórios que terceirizam suas rotinas devem estar atentos à nova legislação da terceirização, pois apesar da segurança jurídica que ela traz nas relações entre contratante e contratada, ela estabelece responsabilidades de cada parte no desempenho dos serviços.”

Apesar de estabelecer novos parâmetros contratuais, alguns vazios legais persistem, principalmente no caso de conflitos em casos de intercorrências.

“A questão contratual entre as partes fica melhor pavimentada, entretanto, no conflito sobre resultados de exames, do ponto de vista prático, não vejo mudanças. O que se vê, na grande maioria das vezes, é problema de interpretação técnica de um resultado, o que cria alguns conflitos entre as partes, sendo alguns de desnecessária intransigência”, ressalva Maricondi.

Cada caso deve ser visto individualmente, e a implantação de uma nova rotina, com certa demanda, onde há o impeditivo de investir em novas tecnologias e de contratar pessoal mais qualificado, o caminho acaba sendo a terceirização. “Nessas situações é melhor terceirizar. Acrescento ainda uma outra situação, quando o custo da terceirização é menor do que o custo de se manter aquela rotina. Essa é uma conta que todos os administradores de laboratório deveriam fazer, desde que a redução do custo agregue outros valores importantes na decisão de terceirizar.”

Para Maricondi, a discussão não pode e não deve ser apenas matemática, a de se olhar somente para a questão custos. “Muito se prega que a terceirização não deve ser olhada somente na questão do custo, mas, especialmente, da melhoria da performance no que tange a qualificação profissional de quem é responsável pelos testes e pelos laudos, dos recursos tecnológicos disponíveis e da melhoria da qualidade do laudo para a decisão médica para o paciente. Concordo plenamente com esse objetivo e ele deveria ser, rigorosamente, o de maior interesse da terceirização. Entretanto, na prática, o que se vê é, muitas vezes, o custo. Este é, sem dúvida, importante, e deve sempre ser considerado, mas não o critério mais importante da utilização da terceirização.”

Há um alerta importante na questão da terceirização: o comprometimento profissional de todos os envolvidos deve ser objeto essencial nestas parcerias.

Finalmente, a decisão de terceirizar deve ser sustentada em critérios bem estabelecidos na gestão de um laboratório. Nas palavras de Maricondi: “Não tenho dúvida de que poder realizar suas rotinas diárias, ter controle sobre suas metodologias, esclarecer as intercorrências junto ao seu próprio quadro de profissionais e ter controle sobre a agilidade na entrega de seus resultados é o sonho de todos os proprietários de laboratório que se qualificaram para isso. Entretanto, a realidade atual é bem diferente, onde profissionalizar a gestão é uma necessidade para a sobrevivência, onde as margens de lucro são extremamente estreitas, devendo-se controlar os custos de forma obsessiva, onde há necessidade de demandas compatíveis para a viabilidade de uma determinada rotina, e onde a exigência de qualificação profissional é cada vez maior, a terceirização sempre será uma ótima ideia para os laboratórios que não conseguem preencher esses requisitos.”

GRUPO INVESTE EM TECNOLOGIA E INOVAÇÃO

Composto por um grupo de empresas atuantes nas áreas de prestação de serviços, pesquisa, desenvolvimento e fabricação de testes para diagnóstico laboratorial, o Grupo Maricondi é formado pelo Laboratório Maricondi, com mais de 70 anos de existência, referência no interior de São Paulo em serviços laboratoriais; pela WAMA Diagnóstica Brasil, fabricante de kits para diagnóstico laboratorial; pela WAMA Diagnostics Suíça, empresa dedicada a pesquisa e desenvolvimento de produtos inovadores na área de biotecnologia; e pela Invent Biotecnologia, empresa de desenvolvimento de proteínas recombinantes e anticorpos monoclonais.

Tecnologia sem planejamento não compensa


Dr. Fernando Henriques Pinto Junior

Quando o professor Fernando Henriques Pinto inaugurou seu primeiro laboratório, em 1958, até os reagentes eram produzidos no local. “O cheiro dos laboratórios era outro. Cheirava a Varsol”, assim lembra seu filho e sucessor, o patologista clínico Fernando Henriques Pinto Junior, que acompanhou esta evolução nas últimas três décadas, seu pai faleceu em 1997.

No início dos anos 1990, o mercado foi aberto e surgiram dezenas de kits disponíveis, cuja concorrência favoreceu o setor. Um equipamento que chegava a custar 150 mil dólares, hoje se adquire um equivalente por 50 mil reais.

O quadro em princípio parece satisfatório para quem começa na atividade, mas não é bem assim. A remuneração pelos serviços não acompanhou a evolução. Pelo SUS, por exemplo, há 26 anos a tabela é a mesma. Planos de saúde também deixaram de ajustar seus preços pelo IPCA. “O investimento em tecnologia não resume a questão. Tudo deve ser analisado antes de se aventurar.” As palavras são de quem fez este caminho e aprendeu com os percalços.

Com a crise econômica do país, muita gente hoje está migrando dos planos de saúde para o SUS, e a demanda por serviços aumenta. Apesar da defasagem das tabelas, segundo o patologista clínico, pelo menos em Ribeirão Preto o SUS funciona bem, devido à grande oferta de serviços de uma cidade polo de saúde. Tratamentos como hemodiálise, exames de ressonância magnética são bem remunerados, mas os testes de laboratório não. “Sabemos que, de qualquer forma, a parceria entre laboratórios privados e o serviço público de saúde ainda é a melhor opção. Instalar um laboratório num hospital pode não justificar o gasto, depende da quantidade de exames.”

O Laboratório Padrão, no mercado há 23 anos e dirigido por Fernando, recebe todos os exames do Hospital São Paulo e da Beneficência Portuguesa. “Veja um exemplo: hoje se paga pelo SUS RS 1,85 por um exame de colesterol. É um número espantoso porque não está considerado nele o gasto que temos com material descartável, a remuneração do profissional. E ainda é um valor tributado. Temos o custo do lixo hospitalar, o papel impresso do resultado. A logística é imensa. No fim das contas, o lucro se resume a centavos. Então você só se mantém se tiver milhares de exames para fazer.” Com este raciocínio, alega, não existe mais a ideia de ter um pequeno laboratório. “A questão é matemática. Para se viabilizar um laboratório você precisa hoje de 50 mil exames/mês, para cima. A produção precisa ser em escala porque você recebe cada vez menos.”

Quando se entra nesse macro, as condições exigem novos investimentos em qualidade de equipamento. A Vigilância Sanitária exige a calibração diária e isso é custo, o laboratório precisa ter a segurança de que o aparelho funciona. “No nosso caso, que fazemos hospitais que têm pronto atendimento e emergência, eles não querem saber se está tudo certo, eles contam com isso e pronto.”

E a conta não comporta apenas o equipamento, hoje a informática é essencial. “Recentemente mudamos nosso sistema, foi uma decisão difícil para o nosso porte, mas precisávamos nos adaptar e ele nos dá mais segurança nos procedimentos. Tudo está registrado. Em caso de falha, ela é detectada e sanada. É uma ferramenta de aprimoramento essencial.”

Nas últimas décadas, Fernando liderou uma incessante busca de eficácia, que culminou na acreditação PALC (Programa de Acreditação de Laboratórios Clínicos) da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica. Foi um processo longo, mas que elevou o Laboratório Padrão a outro patamar, hoje essa elite se reduz a 165 laboratórios em todo o país. “Parece pouco, diante de milhares de laboratórios, mas se você for ver, 60% dos exames feitos saem dos laboratórios com acreditação PALC”, exemplifica. “As exigências, auditorias, nos obrigam a melhorar nossos processos, nosso sistema de produção. Temos auditorias anuais e já são cinco versões de PALC. É um custo fixo, mas é uma ferramenta de gestão e controle fantástica. O mercado se tornou negócio de gente grande, de ganhos em escala. A única possibilidade de permanecer pequeno é a de se associar a um grande ou se dedicar a um nicho específico, como no caso de um laboratório especializado em líquor, de São Paulo. No geral, é necessário ousar, mas sempre fazer as contas na ponta do lápis antes de tomar qualquer decisão.”