Alexandre Guimarães, CEO da Labtest, revela com exclusividade os segredos de uma empresa inovadora que faz 50 anos

Uma empresa com meio século de existência no Brasil passou por muitas crises, inúmeros planos econômicos, recessão econômica, hiperinflação, cenários diversos no país e no mundo. Manter-se depois de tudo isso como referência no mercado, ser pioneira em inovação, tirar grandes aprendizados na pandemia e ter gana para desbravar novos negócios é uma façanha. Segredos contados aqui em detalhes dão indícios da Labtest dos próximos 50 anos


Labornews: A sua posse na presidência da Labtest coincide com os 50 anos da empresa. Como foi esse processo nesse momento de pandemia?

Alexandre Guimarães - Na realidade não é uma coincidência. Nós já vínhamos planejando isso há algum tempo, eu diria uns oito meses, quando a Eliane Lustosa Cabral, que era a CEO, estava se programando para assumir a presidência do Conselho e entendemos que um bom momento para fazer a transição seria justamente o aniversário de 50 anos da empresa, já que seria uma consolidação do nosso processo de profissionalização. Hoje estamos com o Conselho totalmente formado e esse plano de transição vem sendo trabalhado há seis, oito meses, e chega justamente com esses novos planos e prioridades.

Estamos vivendo um momento no mercado de saúde, em geral, muito diferente. Se o mundo está muito dinâmico, esse nosso setor está super dinâmico. A pandemia acelerou muitos processos, algumas tendências que já vinham sendo discutidas, como a desospitalização, a telemedicina, até a tecnologia aplicada à saúde, foram bastante impulsionadas.

As prioridades então se voltam muito para esse cenário, como preparar a empresa, como fazer com que a empresa seja ágil o bastante para conseguir acompanhar essas demandas tão dinâmicas no mercado atualmente.

Labornews: E quais serão as prioridades daqui pra frente?

Alexandre Guimarães - A Labtest vem tentando não só aumentar a velocidade de inovação, e isso significa o lançamento de novos produtos e novos modelos de negócio. Entendemos que esse dinamismo, que me referi há pouco, exige que a empresa esteja preparada para trabalhar em novos modelos de negócio, e sobretudo, que estabeleça novas parcerias que possam contribuir para esse processo de inovação. Então nós vamos permear essas duas áreas: lançamento de produtos - trabalharemos de forma muito forte nesse sentido -, e novos modelos de negócio.

Labornews: quais foram os pontos positivos e negativos para a empresa no momento de pandemia?

Alexandre Guimarães - o ponto positivo foi o aprendizado, realmente um aprendizado impressionante. Se pensarmos no momento de março de 2020, quando eu já estava no Conselho da empresa, eu me lembro claramente que nossa visão do que tínhamos de fazer e o que tínhamos de prover de solução para o mercado, era de um jeito e hoje é de outro jeito totalmente diferente. Então tivemos de aprender a nos preparar para os novos desafios com muita rapidez. E é preciso notar que estamos num mercado muito regulado, que é complexo, mas não apenas complexo: temos uma ANVISA, um mercado de muita concorrência, temos um nível alto de responsabilidade diante de um diagnóstico. Tivemos então de nos adaptar com muita velocidade, nesse ambiente que é um tanto ou quanto agressivo. E esse aprendizado é muito significativo para nós. Foi e está sendo, ainda estamos terminando esse processo. 

E nós sofremos muito com algumas questões. A primeira foi a questão da distância com o nosso pessoal. Hoje somos 210 funcionários, com uma rede de 24 distribuidores no Brasil muito bem estabelecida, sempre com um convívio muito próximo a essas pessoas. Mas a pandemia mudou tudo. Hoje eu concedo essa entrevista de casa, já que estou em home-office, e a distância faz com que percamos um pouco a liga. Nós, mineiros, somos muito associados a esse contato físico e essa distância tem sido muito difícil, tanto para nós, para os colaboradores, distribuidores e clientes também.

Outra questão é a pandemia em si. Não tivemos perda nenhuma, mas temos funcionários que perderam parentes e amigos próximos. E mesmo aqueles que não tiveram uma perda, mas passaram pelo processo da doença, percebemos que são pessoas que têm necessidade de um acolhimento extra. Foi então um processo difícil, tivemos de nos adaptar à situação da pandemia, entender o processo, saber lidar com essa nova situação, não foi tão simples.

Uma questão importante para complementar é a logística. O mundo inteiro ficou de pernas para o ar, e a maioria dos nossos insumos são importados. Então tivemos também muitas dificuldades nessa área.

Labornews - A Labtest tem uma História de sucesso. Como foi o processo, os desafios que trouxeram a empresa para o patamar em que ela se encontra hoje, 50 anos depois? A empresa está presente no Brasil inteiro e América Latina, com perspectivas de ampliação, e ambicionando um crescimento com muita inovação. 

Alexandre Guimarães - estamos com um ritmo de crescimento acelerado. Nos últimos 12 meses estamos com uma taxa de crescimento de 28%, mas estamos com a intenção de chegar ao final do ano de 2021 com crescimento de 33% em relação ao ano passado, o que prova esse ritmo forte de crescimento.

Outro aspecto importante é que eu tive o privilégio de conhecer os fundadores da Labtest, Dr Geraldo e Dr José Carlos, e eles me contaram boa parte da história da empresa, e evidentemente eu vivi boa parte dessa história também. Temos uma expressão aqui em Minas Gerais que diz - “as pessoas vêem as cachaças que você toma mas não os tombos que você leva”. É mais ou menos por aí!

A empresa teve um histórico bem interessante, momentos bem pitorescos, como no início da Labtest, quando havia muito pouca produção de biotecnologia, e reagente para diagnóstico in vitro no Brasil era algo impensável! Então, na primeira exposição que a Labtest teve no Copacabana Palace (no Rio de Janeiro), o Dr José Carlos contava que as pessoas vinham ao estande e ficavam um pouco desconfiadas, achando que aquilo era estranho, mas recebiam o convite de ir à fábrica e conhecer os produtos. Nesse momento, o médico patologista ou proprietário do laboratório ficava encantado, pois não se imaginava que fosse possível produzir esses produtos no Brasil, em 1971.

Outro fato muito curioso, é que eles contavam sobre a dificuldade naquela ocasião, de importar. As grandes corporações sempre importaram, como Usiminas, Vale do Rio Doce, mas empresas de menor porte, como a Labtest, eram praticamente as start-ups da época, e para importar tinham um grande desafio! Não havia preparação para esses procedimentos, as formas de pagamento eram complexas para essas empresas menores, e então os fundadores comentavam muito essas histórias.

Outros desafios, principalmente nos últimos 20 anos, diz respeito à nossa posição, que concorre num mercado gigante; estamos falando das grandes indústrias farmacêuticas. Isso quer dizer que convivemos com um nível de exigência, de complexidade - pela natureza do negócio somado à competição no mercado -, muito alto! Isso é um desafio muito grande para nós. 

O que ajudou a Labtest nesse cenário são duas questões: a primeira é a qualidade do produto, o rigor metodológico científico que sempre foi uma questão importante para os fundadores, está impregnada no DNA dessa empresa, e foi o que fez com que passasse pelos momentos difíceis. O mercado sempre reconheceu o produto da Labtest como um produto realmente superior. Curiosamente, logo que entrei aqui, era muito comum as pessoas me perguntarem sobre trabalhar numa multinacional. Havia essa ideia de que a Labtest fosse estrangeira, porque era impensável uma empresa brasileira, naquela época, com aquele padrão. Esses aspectos, portanto, foram pontos muito fortes no histórico da empresa.

Outra particularidade importante que eu ressalvo é a parte de compliance, que hoje está na moda, mas me lembro quando tive contato com a Labtest pela primeira vez, em 2002, a empresa tinha um nível de compliance muito alto. Aliás, a palavra nem existia naquela época! Mas já era perceptível que a empresa já tinha essas boas práticas de governança e a própria compliance.

Fábrica da Labtest 

Foram outros aspectos que ajudaram muito a empresa em momentos difíceis. Imagina um país com o histórico do Brasil, em 50 anos, por tudo o que a empresa passou: muitos planos econômicos, taxas de juros a 16% ao ano, hiperinflação,… Eu acredito que essas duas questões - a parte da qualidade de produto e o rigor científico, somado ao modelo de gestão "bem redondinho" em termos de compliance e governança, fizeram com que a empresa progredisse mesmo nos momentos mais difíceis.

Labornews - O valor da compliance hoje tem realmente um peso imenso. E esse aspecto foi de fato uma inovação de vocês, a Labtest saiu na frente. Qual outro fator que faz com que vocês apareçam mais no mercado, que você gostaria de ressaltar?

Alexandre Guimarães - realmente a inovação, o pioneirismo foi um aspecto típico da empresa. Não fomos só os primeiros a lançar reagentes no Brasil, a Labtest foi a primeira empresa a trazer produtos nao-liofilizados, a primeira a colocar equipamentos semi-automáticos no mercado. Temos a história do pioneirismo. Isso fez e faz com que a empresa se qualifique mais dentro do mercado. 

Outro ponto forte que está no nosso DNA é o conceito da educação continuada e o apoio às instituições de ensino com nossas doações. A Labtest tem uma primazia por estar o tempo todo treinando os distribuidores, treinando os laboratórios, ajudando os laboratórios a se desenvolverem. A história do crescimento do diagnóstico in vitro no Brasil faz parte da empresa. E a figura dos fundadores da empresa é muito forte nesse momento. O Dr José Carlos, por exemplo: eu me lembro que ele viajava o Brasil inteiro, toda a América Latina, fazendo palestras sobre qualidade de produtos, sobre análises laboratoriais, sobre estatísticas aplicadas ao controle de qualidade do laboratório, e isso tudo impulsionou muito a empresa. Por que o laboratório nos enxergava, nos enxerga o tempo todo, como alguém que realmente é um parceiro no dia-a-dia dele. 

Temos um serviço de apoio ao cliente aqui que evidentemente é muito forte, muito utilizado, sendo que recebermos inclusive chamadas de laboratórios que não estão usando os nossos produtos e, mesmo assim, eles nos pedem ajuda. É curioso, e claro que tentamos aproveitar nessa hora uma abordagem mais comercial, porém o importante não é isso, é perceber que o laboratório nos enxerga assim. Este é um ponto muito forte; precisamos garantir isso!

Labornews - Mais algum tópico que o senhor gostaria de comentar?

Alexandre Guimarães - temos para nós algumas vertentes que são desafios. Para que continuemos inovando, continuemos pioneiros, não é fácil. A rapidez nesse mercado é um negócio impressionante. Acho que estamos vivendo dias em minutos, horas em segundos. Para continuar, temos dois aspectos importantes: primeiro, ouvir, e não somente ouvir, mas escutar, o mercado, o cliente. Ser referência, às vezes, te faz não ouvir, e não podemos ficar sem ouvir. Precisamos continuar ouvindo, e muito! O outro, é buscar a inovação de uma maneira mais inovadora. Pode parecer pleonasmo, mas é procurar ajuda, ou seja, desenvolver novas parcerias, trabalhar com conceito de inovação aberta, e não achar que temos de ter solução para tudo. Estamos num mercado difícil, um mercado de concorrência pesada, e então precisamos de ajuda. E esse é um ponto que eu gostaria de ressaltar. As médias empresas brasileiras, principalmente aquelas na área de inovação, de tecnologia, precisam estar abertas a buscar parcerias fora do território da empresa. Isso é fundamental!

 

Por: Andréa Penna

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