Alterações laboratoriais nos pacientes hospitalizados com COVID-19

Em artigo exclusivo para a Labornews , Mauren Isfer Anghebem aborda as novidades em bioquímica e explica por que os marcadores cardíacos, pancreáticos e renais estão sendo considerados bons preditores de severidade e mortalidade na COVID-19.


O laboratório de análises clínicas tem papel central na COVID-19, seja no diagnóstico por meio de testes moleculares e sorológicos, ou no monitoramento dos casos graves com exames hematológicos e bioquímicos. O SARS-CoV-2 entra na célula do hospedeiro através do receptor ACE-2 ou ECA-2, o qual é expresso em diversos órgãos. Portanto, a COVID-19 pode promover a alteração de diversos marcadores laboratoriais ao comprometer estes órgãos. As evidências científicas têm destacado algumas alterações laboratoriais nos pacientes hospitalizados com COVID-19.

A relação aumentada neutrófilo/linfócito, a elevação do D-dímero, a redução da albumina plasmática e o aumento de diversos marcadores bioquímicos, como a proteína C reativa, procalcitonina, ferritina, interleucinas (IL-6 e 10, entre outras), LDH e transaminases são encontradas em casos graves. Além destas alterações, os marcadores cardíacos, pancreáticos e renais estão sendo considerados bons preditores de severidade e mortalidade na COVID-19.

A ferritina é uma proteína sintetizada pelo fígado para estocar o ferro dentro de células, inclusive dentro dos macrófagos. Com o processo inflamatório exacerbado presente na COVID-19, ocorre ativação dos macrófagos e maior captação de ferro. Por consequência, há maior síntese hepática de ferritina para que este ferro possa ser estocado nas células. De fato, pacientes com COVID-19 em estado grave apresentam concentrações plasmáticas de ferritina significativamente superiores àqueles com quadros não severos, destacando esta proteína como marcador de falência de órgãos na COVID-19.

Outro marcador bioquímico que tem chamado atenção é a relação ureia/creatinina. A ligação do SARS-CoV-2 no receptor ACE-2 pode ativar o sistema renina-angiotensina-aldosterona (R-A-A) e promover maior reabsorção tubular de sódio e água. De forma passiva, haverá reabsorção tubular de ureia com aumento da sua concentração plasmática. Além disso, o próprio processo multi-inflamatório sistêmico presente em pacientes críticos com COVID-19 pode aumentar a reabsorção tubular da ureia. A relação ureia/ creatinina aumentada tem sido correlacionada com a severidade da doença em pacientes hospitalizados com COVID-19 e pode ser uma ferramenta útil no manejo destes pacientes. 

O diabetes foi apontado como fator de risco para a infecção pelo SARS-CoV-2 desde o início da pandemia pelo COVID-19. Os mecanismos propostos para explicar a associação observada entre estas duas patologias incluem: a inflamação, alterações na resposta imune, na coagulação e a agressão direta do vírus às células beta pancreáticas. É plausível, portanto, que este vírus promova alterações no metabolismo e na homeostasia da glicose e favoreça o início do diabetes em indivíduos susceptíveis ou amplie a severidade das complicações associadas ao diabetes já manifesto.

Mais estudos são necessários para que tenhamos evidências mais robustas sobre um possível efeito diabetogênico do novo coronavírus. Todavia, a relação da glicemia com a severidade da COVID-19 tem sido reportada em diversos estudos. A glicemia em jejum aumentada no momento do internamento é fator de risco independente para a manifestação grave da COVID-19, sugerindo que a hiperglicemia aguda, por si só, seja um fator de risco independente para mortalidade por COVID-19, por afetar de forma mais agressiva o sistema imune.

Portanto, a monitoração da glicemia entre os pacientes com COVID-19 é fundamental. Sob o ponto de vista clínico-laboratorial, os casos assintomáticos ou leves de COVID-19 se apresentam com pouca ou nenhuma alteração laboratorial. Já os pacientes com quadros clínicos graves apresentam alterações laboratoriais marcadas. Quanto mais evidente for a alteração laboratorial, pior é o prognóstico, indicando comprometimento multi-sistêmico.

Embora ainda existam muitos detalhes a serem estudados em relação ao SARS-Cov-2 e a doença que ele causa, os marcadores laboratoriais têm sido determinantes no monitoramento de pacientes hospitalizados com COVID-19 quando analisados em associação com a clínica.

 

Mauren Isfer Anghebem é Farmacêutica Bioquímica, Especialista em Análises Clínicas e Toxicológicas / UTP, Especialista em Citologia Cérvico-Vaginal / SBAC, Mestre em Ciências Farmacêuticas / UFPR, Doutora em Ciências Farmacêuticas / UFPR, Ex-Bioquímica no Lab Hosp Polícia Militar do Paraná, Professora nos cursos de Farmácia e Medicina / PUCPR, Professora no curso de Farmácia / UFPR 

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