Incidência de hepatites virais aumenta no país

Entrevista com o Patologista Clínico e Gestor Médico, Alex Galoro, que fala detalhadamente sobre os 5 tipos de hepatites.


Diferentes exames laboratoriais são utilizados para o acompanhamento da doença e a vacinação continua sendo a principal forma de prevenção. Quem nos conta em detalhes a situação atual é o Patologista Clínico Alex Galoro, nesta entrevista especial para o Labornews.
 
Labornews – Dos cinco tipos de hepatites conhecidas (A, B, C, D e E), no Brasil não é encontrada a de tipo E, e a D é pouco frequente. Quais são as mais comuns?
 
Galoro - No Brasil, as hepatites virais mais comuns são as causadas pelos vírus A, B e C. Existem, ainda, os vírus D e E, esse último mais frequente na África e na Ásia. De 1999 a 2018, foram notificados mais de 600 mil casos de hepatites virais. Destes, 26% são referentes aos casos de hepatite A, 37% de hepatite B, 36% de hepatite C e 1% de hepatite D.
 
 
L - O fato de os primeiros sintomas de hepatite serem inespecíficos (febres, náuseas e vômitos, urina escura e fezes esbranquiçadas), o diagnóstico deveria ser investigado antes dos sinais mais característicos, como a icterícia? Os profissionais de saúde fazem uma notificação satisfatória das ocorrências?
 
Galoro - As hepatites virais são silenciosas na grande maioria dos casos, o que reforça a necessidade de ir ao médico regularmente e fazer os exames de rotina que detectam os vários tipos de hepatites. Quando os sintomas aparecem, geralmente a doença já está em estágio mais avançado. Os sintomas mais comuns são enjoo, vômitos, urina escura (cor de café); Icterícia (olhos e pele amarelados); Fezes esbranquiçadas (como massa de vidraceiro). As hepatites virais integram a Lista Nacional de Doenças de Notificação Compulsória e os casos positivos devem ser notificados às autoridades de saúde por médicos, profissionais de saúde ou responsáveis pelos estabelecimentos de saúde, públicos e privados.
 
 
L – A hepatite, por ser silenciosa, o diagnóstico é normalmente feito na vida adulta? Ou o contágio ou sua progressão independe da idade do paciente?
 
Galoro - Com exceção da Hepatite A, cuja faixa etária mais frequente para diagnóstico é inferior aos 10 anos, faixa etária mais frequente para diagnóstico das demais Hepatites é nos adultos jovens, entre os 30 e 50 anos para a Hepatite B e entre os 50 e 60 anos para a Hepatite C. Isto se justifica pelas diferentes formas de contágio destes tipos de hepatites. Para a Hepatite A, cuja principal via é a fecal-oral, a maioria dos casos acontece em crianças e adolescentes, enquanto para as Hepatites B e C, que possuem transmissão sanguínea e sexual, o contágio acontece em adultos
 
 
L – No caso da transmissão de mães para filhos, durante o parto, durante a gestação ou na amamentação, os bebês podem ter a doença latente e só se manifestar na vida adulta? Os bebês podem ser curados?
 
Galoro - A transmissão vertical das hepatites B e C, de mãe para o filho, acontecem por via sanguínea, em sua maioria durante o parto, não havendo diferença caso o parto seja por via vaginal ou cesariana. O vírus das hepatites B (VHB) e C (VHC) não são transmitidos pelo leite materno e, portanto, a amamentação não deve ser contraindicada para recém-nascidos (RN) de mães infectadas por estes vírus. Caso não seja realizada a profilaxia, o risco de transmissão perinatal em mães infectadas pelo VHB depende da atividade de replicação viral da mãe. Para gestantes com HBsAg e HBeAg positivos, a transmissão ocorre em 90% dos casos, enquanto em gestantes apenas com o HBsAg positivo, a transmissão ocorre em 10% dos casos. A maioria dos recémnascidos infectados durante o parto serão assintomáticos, com diagnóstico apenas na vida adulta e 25% evoluirão com cirrose ou carcinoma hepático. As medidas de prevenção da transmissão vertical do VHB perinatal são altamente eficazes e envolvem a imunização ativa, com a vacina contra o VHB e passiva, com o uso de imunoglobulina humana hiperimune anti hepatite B, reduzindo-se a incidência de infecção em 85 a 95% dos casos. Para o vírus da hepatite C (VHC), a transmissão vertical é baixa, em torno de 5 a 6% dos casos e até o momento não há profilaxia para evitá-la, indicandose o seguimento das crianças, para diagnóstico e tratamento precoce.
 
 
L – No caso das hepatites A e E, que podem ser adquiridas com a ingestão de alimentos contaminados, há maior risco em locais onde o saneamento básico não é satisfatório? Como é o contágio dos outros tipos?
 
Galoro - A transmissão das hepatites varia conforme o tipo de vírus. Para os vírus A e E, o contágio é fecal-oral, devido a condições precárias de saneamento básico e água, de higiene pessoal e dos alimentos. Para os vírus B, C e D, a transmissão é sanguínea, pela prática de sexo desprotegido ou compartilhamento de seringas, agulhas, lâminas de barbear, alicates de unha e outros objetos que furam ou cortam; ou ainda da mãe para o filho durante a gravidez, o parto e a amamentação.
 
 
L - Vemos que atualmente os jovens já não estão se protegendo de doenças sexualmente transmissíveis como deveriam. Já há registro do aumento de casos de hepatite de transmissão sanguínea, como a B e a C, no país? Há outras situações de risco para o contágio destes vírus?
 
Galoro - A prevenção é diferente, conforme a forma de transmissão. Para as hepatites A e E, que têm transmissão fecal-oral, a prevenção deve ser com cuidados de higiene e saneamento básico porque a infecção acontece através da ingesta de água ou alimentos contaminados. Para as hepatites B, C e D, que têm transmissão sanguínea, as formas de prevenção também variam conforme o tipo de contágio: 
- para contágio através do sexo, recomenda-se a prática do sexo seguro, com uso de preservativos;
- para o compartilhamento de objetos que possam estar contaminados, recomenda-se que isto não ocorra. O ideal é o uso de equipamentos próprios ou esterilizados, como no caso de alicates de unhas e lâminas de barbear, por exemplo; para o contágio de mãe para filho, que pode acontecer no parto ou amamentação, recomendase o tratamento prévio da mãe e, se necessário,
posteriormente do filho.
Em 2007, a taxa de incidência da Hepatite A era superior às Hepatites B e C, porém vem caindo desde então, atingindo 1,0/ 100 mil habitantes em 2016. Neste mesmo período, as Hepatites B e C apresentaram tendência de aumento, sendo que a Hepatite C superou a incidência da Hepatite B a partir de 2015, quando houve mudança na definição dos casos, para fins epidemiológicos, sendo a contaminação sexual a principal causa para o VHB e o uso de drogas e transmissão sanguínea para o VHC.
 
 
L – Já existem vacinas contra os tipos A e B. A melhor forma de se prevenir ainda é a vacina? Há mais adultos que podem ser vulneráveis à hepatite por não terem sido vacinados?
 
Galoro - A vacina é a mais importante forma de prevenção. Contra as hepatites do tipo A e B, entretanto quem se vacina para o tipo B, se protege também para hepatite D, e está disponível gratuitamente no SUS. Para os demais tipos de vírus não há vacina. A
vacinação para a Hepatite B foi disponibilizada para a população brasileira a partir de 1991 e atualmente sua cobertura vacinal atinge cerca de 50% da população em geral, com maior taxa nas populações mais jovens e decréscimo gradativo para mais idosos, resultando em grande exposição de adultos jovens ao vírus. Já a vacinação para a Hepatite A, também disponível no calendário anual de imunização do Sistema Público brasileiro, também apresenta baixa cobertura vacinal, com cerca de 50% da população jovem vacinada.
 
 
L – A gravidade pode variar, desde a tipo A, que evolui para a cura espontaneamente (raramente levando a óbito); e as de tipos B e C, que podem evoluir para forma crônica, a cirrose hepática e até para o câncer. Hoje em dia há medicamentos que conseguem reverter mesmos os quadros mais graves?
 
Galoro - Menos de 1% dos casos de Hepatite A evoluem para hepatite fulminante, que é a condição mais grave, podendo levar a óbito a metade dos acometidos, sendo muitas vezes indicado o transplante hepático. As hepatites B e C podem evoluir para cirrose hepática, onde o tecido do fígado fica fibroso e deixa de realizar tarefas primordiais para o organismo, como o processamento de nutrientes e medicamentos, a fabricação de proteínas e a produção da bile, que atua na digestão. Por último, pacientes com cirrose hepática tem maior chance de ter hepatocarcinoma, que é um tipo de câncer do fígado, bastante agressivo e que pode causar a morte. Os vírus A e E apresentam apenas formas agudas de hepatite, que significa que o indivíduo pode se recuperar completamente, sem tratamento específico, apenas com sintomáticos e repouso. Já as hepatites B e C podem se tornar crônicas e neste caso estão indicados os tratamentos. Felizmente hoje existem diferentes opções de tratamento, com boa eficácia e relativamente poucos efeitos colaterais, com drogas como Interferon, Alfapeguinterferona, Entecavir, Tenofovir, entre outras. O tratamento está disponível na rede pública.
 
 
L - Cada tipo de hepatite pode receber um tratamento diferente?
 
Galoro - Sim, o tratamento é específico para cada tipo de hepatite, variando conforme o vírus, o paciente e sua evolução. O Ministério da Saúde disponibiliza manuais técnicos para o tratamento das Hepatites B e C, com fluxogramas de orientação da equipe de saúde para cada uma das situações clínicas.
 
 
L – Como é a fidelidade ao tratamento, que pode levar até anos? O abandono do tratamento depois da melhora clínica pode levar ao
ressurgimento da doença?
 
Galoro - O tratamento das Hepatites B e C tem muitas variáveis, conforme o tipo de vírus, quadro clínico e a resposta às medicações. Tem duração mínima de alguns meses, mas pode se prolongar por anos. Os efeitos colaterais são comuns e
compreendem cansaço, dores musculares e articulares, emagrecimento, cefaleia, irritabilidade, febre, entre outros. Apesar deles, a taxa de abandono varia em torno de apenas 5%. Mesmo quando o tratamento é realizado corretamente, uma quantidade significativa
de pacientes não obtém a Resposta Viral Sustentada (RVS), ou seja, pacientes voltam a ter a presença de vírus circulante após a suspensão do tratamento. Para pacientes que interrompem o tratamento, o reaparecimento do vírus é mais frequente e pode levar
às complicações da Hepatite.
 
 
L – Qual a diferença entre os testes sorológicos, os de biologia molecular e os testes rápidos oferecidos pela rede pública para o diagnóstico da hepatite?
 
Galoro - O diagnóstico é feito através de exames laboratoriais, como sorologias e testes de biologia molecular, que detectam o vírus no organismo. As sorologias levam de 30 a 60 dias para se tornarem positivas, após o contágio, pois dependem da
produção de anticorpos pelo organismo, enquanto os testes de biologia molecular podem detectar o vírus circulante de forma mais precoce, com poucos dias após a infecção. Embora hoje já haja testes rápidos de biologia molecular, os utilizados hoje para as hepatites compreendem Imunoensaios para detecção de antígenos e anticorpos das Hepatites. As características de desempenho destes testes variam conforme o fornecedor e são causas importantes de variação na interpretação de seus resultados, devendo ser avaliados previamente pelos laboratórios que desejam implantá-los em suas rotinas.
 
Texto: Regina Prado