Marcadores tumorais bioquímicos circulantes: avanços e limitações

“Insisto que os marcadores tumorais bioquímicos são ferramentas muito importantes, mas devem ser utilizadas com cautela, respeitando suas limitações, seja nas condições pré analíticas, metodológicas e, principalmente, na interpretação dos resultados”, disse o médico patologista clínico, Dr. Adagmar Andriolo, Chefe da Disciplina de Medicina Laboratorial da UNIFESP


O que são os marcadores tumorais?
Marcadores tumorais bioquímicos circulantes são substâncias cuja concentração no sangue guarda alguma relação com a presença de um processo neoplásico.

Os avanços tecnológicos na patologia clínica, como os marcadores, foram uma inequívoca conquista científica, mas vem ganhando críticas. Alguns pacientes diagnosticados com câncer nunca apresentaram níveis elevados de marcadores tumorais. Por outro lado, quando os níveis destes marcadores são altos, isso nem sempre significa presença de câncer. Por exemplo, o nível do marcador tumoral CA 125 pode estar elevado em mulheres com outras condições ginecológicas além do câncer de ovário (exemplo publicado no site do Oncoguia). Esses marcadores são eficazes ou não? Em que condições podem ser usados com grande confiabilidade?
Sim, é verdade. Os marcadores tumorais representam um avanço na luta contra o câncer, mas alguns cuidados devem ser tomados para a sua utilização, considerando que os processos neoplásicos são bastante diferentes entre si, o que faz com que os marcadores possuam diferentes graus de sensibilidade e especificidade.
É importante notar que muito poucos marcadores tem utilidade para o diagnóstico primário de câncer. A maioria deles é mais útil no acompanhamento dos pacientes que já tiveram o diagnóstico e que foram tratados. Isso porque, muitos dos cânceres tem a propriedade de serem recorrentes (ocorrer novamente no mesmo órgão) ou metastático (ocorrer em outro local do organismo). Nem sempre o tratamento consegue ser totalmente efetivo e o paciente precisa ser acompanhado para a detecção precoce da recorrência.

Como são, nos seguintes casos, o uso de marcadores tumorais: diagnóstico, prognóstico,verificação da eficácia do tratamento, resposta ao tratamento e recidiva?
Para uso no diagnóstico, temos como maior exemplo, o antígeno prostático específico (PSA) que pode ser utilizado para o diagnóstico do câncer de próstata, junto com o exame digital retal.
Como prognóstico, podemos referir que praticamente todos os marcadores podem ser utilizados, uma vez que sua concentração quanto mais elevada, indica maior desenvolvimento do tumor, o que sugere pior prognóstico. Da mesma forma, para verificar eficácia e resposta ao tratamento, o que se espera é que os tratamentos mais eficazes são acompanhados da redução da concentração do marcador na circulação. Quando não ocorre esta redução, podemos concluir que o tratamento não está sendo eficaz.

Aumentou a incidência do câncer de próstata por causa do envelhecimento da população ou aumentou as chances de a doença ser detectada mais facilmente?
Provavelmente, as duas coisa estejam acontecendo. Há um inegável aumento da expectativa de vida e uma significativa melhora nos recursos diagnósticos e da preocupação das pessoas com a sua saúde. Como resultados, temos que um maior número de diagnósticos são feitos. Isso vale para muitas doenças, não só para o câncer.

O PSA, Antígeno Prostático Especifico, é um marcador confiável?
Sim, é um marcador confiável, desde que sejam tomadas algumas precauções. Existem cuidados mesmo antes da coleta do sangue, como por exemplo, evitar qualquer trauma na região perineal, como o provocado pelo uso de bicicleta, Realizar conjuntamente exame de urina de rotina para avaliar se não existe processo infeccioso concomitante, que pode ser uma causa de elevação não neoplásica do PSA. Da mesma forma, na interpretação do resultado, é preciso levar em conta não só o valor absoluto da medida do PSA, mas da variação em relação a resultados anteriores e o valor da relação PSA livre sobre o PSA total.

O PHI - Índice da Saúde Prostática, substitui o PSA? Quais as vantagens desse processo?
Não. O exame PHI não substitui o PSA. Enquanto a medida do PSA está indicada para todos os homens acima de 50 anos (acima de 45 anos para os que tem parentes do primeiro grau com história de câncer prostático) que a desejarem, depois de informados sobre as possibilidades diagnósticas e terapêuticas disponíveis, para a medida do p2PSA e para o cálculo do PHI existem condições bem definidas. Por exemplo, só tem indicação a média do p2PSA e o cálculo de PHI para quem tem PSA entre 2 e 10 ng/mL, para quem tem exame digital normal, mas a suspeita de câncer é elevada.

Alguma outra consideração sobre os marcadores?
Insisto que os marcadores tumorais bioquímicos são ferramentas muito importantes, mas devem ser utilizadas com cautela, respeitando suas limitações, seja nas condições pré analíticas, metodológicas e, principalmente, na interpretação dos resultados.