O índio, o sangue, a selva e as hemoglobinopatias


Abril de 1971. O Brasil estava em glória! Havíamos conseguido o tricampeonato mundial de futebol no México com o fabuloso Pelé e companhia. Naquela época caminhávamos despreocupadamente pelas ruas de São Paulo, inclusive nas madrugadas. A bossa nova era assoviada pelas pessoas que andavam pelas ruas, parques e avenidas. E foi neste clima de alto astral que o Serviço de Hematologia do Hospital São Paulo enviou para o meu laboratório na Faculdade de Medicina de Botucatu 25 amostras de sangue coletadas de índios do Parque Nacional do Xingu. O objetivo era saber se eles tinham hemoglobinopatias.

Eu havia desenvolvido equipamentos artesanais que permitiam fazer eletroforeses de hemoglobina em acetato de celulose com baixíssimo custo, em qualquer lugar, e em tempo recorde (para a época) de 18 minutos. Já no primeiro grupo analisado, uma das amostras mostrou estranha fração de hemoglobina que não se movia além da aplicação. Duas outras amostras resultaram com discretas elevações da HbA2, e as restantes estavam todas normais. As amostras com HbA2 elevadas não tinham microcitose e hipocromia, afastando a possibilidade de talassemia beta menor. Portanto, a Hb A2 elevada era uma situação autóctone, ou seja, própria daqueles índios. Ao enviar os resultados para o Hospital São Paulo recebi um inusitado convite para ir pessoalmente ao Parque Nacional do Xingu, e fazer a coletar e análise de 100 amostras de sangue dos índios daquela região. No início de maio daquele ano, eu, um médico e um técnico de laboratório, ambos do Hospital São Paulo, fomos conduzidos ao Xingu num avião DC3, barulhento como um liquidificador, mas que nos fornecia uma vista maravilhosa da selva. Ao chegarmos no Parque Nacional assustei-me ao ver índios e índias adultos nus, com a pele tingida em vermelho por urucum. Conversamos com o cacique dos índios Yawalapiti, e o mesmo nos colocou à disposição o seu filho Aritana, ainda adolescente, para nos conduzir pela selva e aldeia. Alguns anos depois, Aritana haveria de se tornar o mais famoso cacique das tribos indígenas do Xingu.

No dia seguinte, preparamos os equipamentos para eletroforese com energia proveniente de uma bomba elétrica movida a diesel. Se fez uma fila de índios que parecia não ter fim, e coletamos sangue de todos. À tardinha foram feitas as primeiras eletroforeses e, paradoxalmente, a amostra da hemoglobina anormal do índio que foi o motivo da minha ida ao Xingu mostrou-se normal. No terceiro dia de Xingu, ao finalizarmos as análises, constatamos que os índios não tinham hemoglobinopatias. Apenas 10% deles tinham Hb A2 elevada, mas não eram por talassemia beta menor. Ficamos mais um dia naquele belíssimo lugar do Brasil, nadando, conversando e almoçando com os índios. No mês de junho seguinte, um famoso hematologista da Venezuela, o Prof. Tulio Arends, veio a São Paulo proferir conferência sobre hemoglobinas em índios venezuelanos. No final da palestra eu me apresentei a ele e mostrei meus resultados. Eram similares aos que ele havia obtido em suas avaliações. Enfim, descobrimos que a causa da elevação da Hb A2 se devia à anemia hemolítica da malária. Não demorou um mês e recebi o convite para estagiar no prestigiado Instituto Venezolano de Investigaciones Científicas.

Em novembro daquele mesmo ano fui para um estágio de 30 dias no laboratório do Dr. Arends aprender técnicas em bioquímica molecular. Os conhecimentos adquiridos foram suficientes para realizar o meu doutorado, defendido exatamente um ano depois, no dia 30 de novembro de 1972. Durante o curso na Venezuela conheci o Prof. Hermann Lehmann, o papa das hemoglobinopatias. No início de 1973 enviei ao Prof. Lehmann os resultados da minha tese de doutoramento, e poucos meses depois ele me convidou para realizar o pós-doutorado em seu laboratório na Universidade de Cambridge, Inglaterra. A partir daí me tornei um pesquisador em hemoglobinopatias. Ainda penso que estive nos lugares certos, nas horas certas e com as pessoas certas, mas certamente empenhei-me muito para que tudo desse certo. Este tema é dedicado aos colegas que estão iniciando uma carreira.