O Mal de Parkinson já não assusta tanto

A segunda doença neurodegenerativa em número de pacientes no mundo, atrás somente do Alzheimer, possui sintomas que hoje são controláveis por diferentes terapias, mas sua origem ainda permanece um mistério.


Há pouco mais de 200 anos o neurologista inglês James Parkinson descreveu o que chamou de “paralisia agitante”, em alusão aos tremores que acometem os portadores da doença. Mais tarde o médico francês Jean-Martin Charcot homenageou o colega com o nome com o qual é conhecida a doença até hoje, o Mal de Parkinson. O dia do aniversário de Parkinson, 11 de abril, foi escolhido pela Organização Mundial da Saúde como o dia mundial de conscientização sobre a doença.

Apesar de ser o centro de inúmeras pesquisas pelo mundo, as causas da doença ainda não são completamente conhecidas. Sabe-se que é uma degeneração crônica que afeta os neurônios secretores de dopamina, que atinge diretamente as regiões cerebrais responsáveis pelo controle e coordenação dos músculos, provocando tremores, rigidez e finalmente comprometendo a mobilidade, numa progressão de distúrbios lenta e gradual.

Há, porém, alertas orgânicos que podem anteceder os tremores que a definem, e que não são normalmente associados à doença. Problemas como, por exemplo, a perda do olfato e alguns distúrbios do sono acometem com frequência os portadores no começo da patologia. Segundo o professor Vitor Tumas, da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, coordenador de grupos de distúrbios do movimento e neurologia comportamental, também são importantes os sintomas de depressão e constipação intestinal, que atingem perto de 30% dos pacientes. Conhecer os primeiros sintomas pode ajudar no início precoce das terapias, mas não há, diferente do que se acredita, medicamentos que possam proteger o cérebro da morte celular decorrente da doença.

Mesmo sem ter sido ainda desvendada a causa exata, há consenso entre especialistas de que fatores genéticos e ambientais contribuem para o surgimento do Parkinson. Apesar de estudos apontarem a possibilidade de que traumatismos repetidos no crânio ou a exposição a determinados pesticidas possam facilitar o aparecimento da doença, Tumas aponta que a vida na zona rural pode ampliar o risco de se desenvolver o Parkinson.

O agrotóxico, segundo o professor, é apontado como um possível desencadeante do Parkinson, mas este fator de risco sozinho ainda não é consenso entre especialistas. Pesquisadores ingleses estudaram a ação do pesticida Rotenone em ratos e concluíram que os sintomas são semelhantes aos da doença. No entanto, a incidência depende da conjunção de outros fatores genéticos ou ambientais. Sabese que o fator ambiental é relevante. Segundo Tumas, “pode ser uma relação indireta. As questões ambientais da vida na zona rural, por exemplo, incluem a exposição à água de poço ou de mina. Se o indivíduo tem uma predisposição genética e é exposto a fatores ambientais a probabilidade é maior. Quem tem alguém na família com Parkinson comprovadamente tem risco maior de desenvolver a doença. Algumas formas são totalmente genéticas.”

Surpreendentemente, hábitos cotidianos que podem ocasionar inúmeros outros problemas de saúde são considerados fatores de proteção contra o surgimento da doença, como o consumo exagerado de café e o hábito de fumar, por exemplo. Há ainda um outro fator protetor conhecido, que é ter um nível de ácido úrico elevado.

DIAGNÓSTICO E TERAPIAS

O diagnóstico é feito a partir dos sintomas clínicos e é importante que sejam descartadas outras origens de tremores que podem não estar associadas ao Parkinson. Segundo o professor Vitor Tumas, sabe-se que o acúmulo de ferro no cérebro tem relação com o Parkinson, o que pode ser analisado em ressonância magnética. “Talvez o excesso de ferro seja um dos principais fatores que leva à morte das células. Não é um diagnóstico, mas pode monitorar no futuro novos tratamentos específicos”.

Os sintomas ligados aos tremores são consequência direta da morte de células do mesencéfalo e a diminuição da produção da dopamina. Uma das hipóteses mais aceitas é a acumulação de proteínas no corpo de Lewy. As evidências levam também à alfa-sinucleína, uma proteína que forma agregados distribuídos principalmente no sistema nervoso. “Descobriuse há alguns anos que o acúmulo de alfasinucleína no corpo de Lewy pode ser o elemento chave do processo de morte dos neurônios no caso do Parkinson.” Cientistas alemães chegaram a cogitar tratar-se de uma doença autoimune, mas não há consenso sobre este fato.

Uma outra pesquisa controversa não chegou a se converter em terapia, mas trouxe novidades com relação à multiplicação da alfasinucleína. Injeção de células produtoras de dopamina do mesencéfalo de fetos, produtos de aborto, em pacientes com Parkinson provocaram melhoras nos sintomas, mas esta melhora foi eventual e não significativa. Na autopsia posterior dos pacientes, porém, descobriu-se que as células fetais injetadas haviam sido contaminadas pela alfa-sinucleína. Levantou-se então a possibilidade de contágio de células sadias. “Mas ainda se desconhece o motivo patológico que desencadeia este processo.”

O recente envelhecimento da população em geral é considerado relativo no caso de doenças degenerativas. Uma parcela pode viver muito e viver bem, apesar de o organismo estar mais fragilizado com o passar do tempo.

No caso do Mal de Parkinson, os médicos afirmam que, apesar de não haver cura, os pacientes podem ter os sintomas controlados e ter uma vida relativamente plena. Nas fases mais críticas, quando os medicamentos antiparkinsonianos e os agonistas da dopamina já não são suficientes para o bem estar, existe a possibilidade de implantação de eletrodos de estimulação cerebral profunda. No Brasil, o SUS oferece este tratamento.

Cirurgicamente, eletrodos são implantados no cérebro em áreas motoras específicas e ligados em seguida a um gerador dos impulsos elétricos, inserido sob a pele, próximo à clavícula. Assim, os tremores, rigidez e, ainda, a lentidão dos movimentos podem ser atenuados pela estimulação elétrica nas áreas afetadas pela doença.

No início deste ano, novidades tecnológicas que podem aprimorar este resultado foram anunciadas pela Universidade da Califórnia, que divulgou seus estudos sobre um neuroestimulador inteligente chamado WAND, sigla inglesa para dispositivo sem fio de neuromodulação sem artefatos. Ele será capaz de monitorar a atividade cerebral em 128 pontos diferentes, e assim que rastrear pequenas alterações pode ajustar a intensidade da estimulação elétrica segundo os sinais registrados. Os aparelhos atuais monitoram apenas oito sinais. O WAND ainda está sendo aperfeiçoado por engenheiros e pode levar anos até que esteja disponível fora da universidade, mas é uma ótima notícia para a família e portadores de uma doença degenerativa ainda sem cura, mas que mobiliza pesquisadores em todo o mundo na busca de qualidade de vida para os pacientes.

Mais comuns em homens, indicadores da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que 1% das pessoas com mais de 65 anos em todo o mundo são portadoras do Mal de Parkinson. No Brasil estima-se que existam 200 mil pessoas afetadas atualmente.

*Texto e foto: Regina Prado