O meio ambiente é o nosso ambiente


O trágico desastre da barragem de Brumadinho, MG, se tornou mais grave diante da desorganização administrativa de Minas Gerais, e da mídia sensacionalista que pouco colaborou na condução das informações. De repente, pessoas travestidas de ambientalistas passaram a emitir conceitos sem constrangimentos das suas ignorâncias. Meio ambiente, em termos gerais, é tão genérico quanto comprar ou vender os famosos créditos de carbono. Você ainda acredita em créditos de carbono?

Cada ambiente tem suas especificidades e suas formas naturais de autogestão, mesmo quando agredidos. Há aproximadamente 37 anos eu tive experiências íntimas com ambientes poluídos, agredidos e deteriorados. Estes ambientes estavam distribuídos em diversas áreas da cidade de Cubatão, SP.

Um destes ambientes era a vila Parisi, com certeza o mais poluído, e por isso denominado o Vale da Morte. A localização desta vila era alvo de milhares de toneladas de gases tóxicos liberadas diariamente pelas indústrias da cidade. Suas consequências eram facilmente sentidas através das chuvas ácidas provocadas pela evaporação dos gases de enxofre que, ao se misturarem com gotículas de água do vapor atmosférico, se transformavam em ácido sulfúrico, provocando um chuvisco ácido, principalmente de madrugada. Pessoas tinham lesões na pele e no olho por conta deste tipo de contaminação. As roupas estendidas em varais e expostas à secagem durante a noite ficavam com múltiplos furinhos causados pela chuva ácida.

Em 1981 nasceram, e morreram, na cidade de Cubatão dez crianças com anencefalia. Um número assustador para uma população de 50 mil habitantes. O mundo científico se alarmou! Fui convidado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência para conduzir pesquisas que avaliassem o grau de toxicidade química no sangue dos moradores de Cubatão. Analisei amostras de sangue de 500 pessoas daquela cidade, e 35% delas estavam com a capacidade de oxigenação diminuída. Este fato, numa gestante no primeiro mês de gestação, seria desastroso para o embrião em desenvolvimento, e uma das possibilidades nefasta da toxicidade poderia ser a anencefalia. A baixa oxigenação das células que seriam a base da formação do sistema nervoso central não teria condições de se desenvolver e a massa cerebral não seria completamente formada. Desta maneira, a ausência do encéfalo causaria a anencefalia.

Em outra ocasião fui a uma lagoa daquela cidade para coletar rãs e estudar os efeitos anátomo-patológicos causados pelas águas poluídas. Quando suspendi a peneira, em lugar de girinos de rãs, vieram cerca de 30 caramujos transmissores de esquistossomose, que em análise posterior se mostraram contaminados.

Mas não se comentavam dos doentes contaminados com a esquistossomose, nem daqueles que padeciam de doenças respiratórias e da pele!!! O que se destacava era a anencefalia no Vale da Morte! Por volta de 1984, quando tudo encaminhava para uma solução por meio de decisão política, pessoas que viviam em casas sobre palafitas em outra região deteriorada de Cubatão, a vila Socó, e por onde passavam tubulações de oleoduto, morreram carbonizadas por explosões sequenciais. Resultado, 90 mortos e 200 desaparecidos. Governantes e mídia desconheciam que pessoas da vila Socó roubavam óleo diesel para vendê-lo em galões a preços baixíssimos para motoristas da baixada santista. Isto se mostrou, portanto, que num meio ambiente hostil as pessoas constroem o seu ambiente e, em ambientes degradados elas são desconstruídas, física e biologicamente. Isto é a cultura de um povo que aprendeu a tirar vantagem de coisas e que um dia o levará precocemente para o ambiente celestial!