O PERFIL LIPÍDICO: QUAL É A MELHOR ESCOLHA?

Em entrevista exclusiva, Dr. Carlos Eduardo Ferreira dos Santos, presidente da SBPC/ML, comenta o estudo do Dr. Seth Martin, que defende liberação de jejum para perfil lipídico. Pesquisa liderada pelo criador da Fórmula Martin, que contou com mais de 1 milhão de pessoas, revela que 15% das amostras apresentavam nível de LDL-c abaixo de 70, resultados que não eram manifestados no estudo de Friedewald, metodologia utilizada pelos laboratórios desde a década de 70.


O Dr. Seth Shay Martin, cardiologista preventivo e lipidologista clínico no Hospital Johns Hopkins em Baltimore, Maryland (EUA), palestrou em uma das conferências magnas do 2º Congresso Virtual da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial, realizado em setembro de 2021. A mesa foi presidida pelo Dr. Carlos Eduardo Ferreira dos Santos, presidente da SBPC/ML, que comenta aqui, a importância desse estudo, os aspectos relevantes para os laboratórios brasileiros e o impacto no tratamento dos pacientes.


Dr. Seth Shay Martin
 

O Dr. Seth Shay Martin desenvolveu uma nova fórmula de cálculo de LDL colesterol. "Anteriormente todos os laboratórios reportavam LDL colesterol (o colesterol ruim) com a fórmula de Friedewald, desenvolvida em 1972, ano em que nasci. Até que o Dr. Martin e um grupo de colaboradores dele, da Johns Hopkins, em Baltimore, desenvolveram um modelo matemático utilizando uma base de dados com mais de um milhão de pacientes e criaram uma nova fórmula de cálculo desse LDL colesterol”, contou o Dr. Carlos Eduardo Ferreira dos Santos.

A SBPC/ML chamou o Dr. Seth Shay Martin para o Congresso porque boa parte dos laboratórios do país já está utilizando essa nova fórmula. "Eu trabalho no Hospital Albert Einstein há 15 anos e nós implantamos essa metodologia no final de 2016 com o início da flexibilização do jejum para coleta de sangue para colesterol e trigliceres”, explicou Santos, complementando que foram dois momentos que caminharam juntos: a nova fórmula e a flexibilização do jejum no país.


Carlos Eduardo dos Santos Ferreira

"Nessa nova formula, o divisor é variável e conseguimos estimar com maior acurácia o valor do LDL colesterol. Anteriormente tinha muita imprecisão, visto que concentrações variadas de triglicérides interferiam diretamente. E isso tem impacto direto no tratamento dos pacientes, porque grande parte dos médicos no Brasil e no mundo utilizam os valores do LDL como alvo terapêutico para o uso de drogas anti-lipídicas, para baixar o colesterol, como as estatinas, a ezetimiba e um novo imunobiológico, o antiPCSK9”, esclareceu Santos. Assim, grande parte dos laboratórios brasileiros adotaram a Fórmula Martin por suas vantagens.

O presidente da SBPC/ML conta ainda, que a SBPC/ML em 2016 - num trabalho conjunto com a Sociedade Brasileira de Cardiologia, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia, a Sociedade Brasileira de Diabetes, a Sociedade Brasileira de Análises Clínicas - criou um novo consenso de padronização de coleta em lipidis, "permitindo a flexibilização, a quebra do jejum de 12 horas para coleta do colesterol total, das frações, e no caso, do triglicérides também. E assim apresentamos uma nova forma de interpretar o novo valor de referência para interpretar esses valores de lípides. Agora, a interpretação vai ser baseada no risco do paciente. Então, eu posso ter 70 mlg de colesterol e para mim esse valor ser ok. Mas se esse valor é apresentado num paciente de alto risco, se já teve um enfarto, se já teve um AVC, é preciso que esse paciente baixe esse valor para menos de 50. Então, o valor acaba sendo baseado em alvo terapêutico, no risco cardiovascular. E esse risco, quem deve calcular é o médico que atende o paciente. O laboratório solta o resultado do colesterol baseado no risco: elevado, intermediário, e baixo, dependendo das taxas isso é estratificado. Essas questões estão publicadas nesse consenso entre as sociedades". 


Borge Nordestgaard - pesquisador dinamarquês 

Foi nesse momento que a SBPC/ML sugeriu aos laboratórios que utilizassem a Fórmula de Martin, visto que não há essa necessidade direta do jejum. 

A entidade trouxe, no ano da flexibilização do jejum para o perfil lipídico, o pesquisador dinamarquês, Borge Nordestgaard, que foi quem liderou essa questão. Ele começou a estudo em 2009 e 2010, e vários países nórdicos aderiram ao posicionamento do Dr. Borge Nordestgaard. A partir daí foi iniciada a discussão na comunidade científica mundial. Hoje, vários outros países já flexibilizaram também, como Brasil, EUA e outros."É lógico que se o médico pede para seu paciente fazer o jejum de 12 horas, o paciente seguirá a recomendação e o laboratório vai seguir a determinação médica”, disse Santos. 


Os benefícios da flexibilização 

“Os benefícios da flexibilização são muito grandes”, explica o presidente da SBPC/ML: “existem muitos pacientes diabéticos com risco de hipoglicemia em coleta após 12 horas em jejum, por exemplo. Outro aspecto: não é nossa realidade, ninguém passa, normalmente, um período de 12 horas sem se alimentar. Então é importante termos uma avaliação do nosso perfil lipídico com a nossa vida real. Quem come feijoada todo dia, quem come gordura todo dia, deve encarar seu exame de sangue com a gordura todo dia. Não adianta passar sete dias de dieta, passar 15 horas em jejum, para enganar na coleta de sangue! É importante manter os hábitos normais, inclusive na ingestão de bebidas alcoólicas. Se a pessoa bebe álcool habitualmente, não deve deixar de fazê-lo antes do exame. Agora, se a pessoa transgredir a dieta habitual num dia, ela não deve colher sangue no dia seguinte, pois não é sua dieta frequente”.

Santos conta que foram dois movimentos que caminharam juntos: a flexibilização do jejum foi debatida com o Dr. Dr. Borge Nordestgaard no Congresso da SBPC/ML em Florianópolis, em 2018, e o aprofundamento do debate com o Dr. Seth Martin este ano, que será convidado para vir presencialmente no próximo ano se a pandemia permitir.

Santos lembrou que Dr. Martin citou bastante o Brasil, "mostrando as publicações da SBPC/ML, os nossos consensos, parabenizou o Brasil, por ter sido pioneiro, vanguarda, junto com o colega nórdico na flexibilização do jejum, e também na alteração da fórmula por adotar um modelo mais acurado na medição do LDL”. 

O presidente da SBPC/ML lembrou que é difícil mudar, quebrar um paradigma, mas isso foi e é realizado de acordo com a dinâmica de cada laboratório, de cada país, e por isso ainda há um processo para disseminar essa nova metodologia no mundo. “Ainda no Brasil e nos EUA há centros e laboratórios que não fizeram essa mudança, pela parametrização do sistema e também a atualização, não apenas para o perfil lipídico. A SBPC/ML trabalha bastante na disseminação do conhecimento técnico-científico, e isso é fundamental".

Para Santos, a medicina laboratorial do país está de parabéns, “basta ver o nosso congresso, a disseminação de conhecimento que proporcionamos, não só na área de lipidis, mas numa quantidade grande de exames disponíveis e a nossa missão é disseminar essa interação entre a clínica e o laboratório". 

Ao final da palestra do Dr. Martin, Santos fez uma pergunta em relação aos valores de LDL que são inferiores a 10, "mesmo com a nova fórmula, sendo que algumas pessoas podem ter até mesmo valores negativos, como ele exemplificou, mas que na verdade é considerado ‘zero’, pois não existe valor negativo de uma substância. E no Brasil sugerimos reportar os valores inferiores a 10, porque isso, na prática clínica, LDL inferior a 10 não importa se é 10 ou se é 7 ou 5. É um valor bem baixo. É isso que é importante para o paciente, principalmente o paciente de alto risco. Eles precisam atingir metas terapêuticas importantes, valores do nosso guideline, valores abaixo de 50 mlg/dcl e é bem difícil atingir esse alvo. Com as medicações é importante otimizar as terapias desses pacientes para minimizar o risco cardiovascular e evitar um risco de um futuro evento.

 

Texto: Andrea Penna

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