SEGURANÇA DO PACIENTE

Cerca de mil gestores, setores público e privado, profissionais e sociedade civil, se reunem no Rio de Janeiro no Primeiro congresso da Sociedade Brasileira para a Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente


*Texto: Andrea Penna

“Erros de medicação causam pelo menos 1 morte todos os dias e causam danos a aproximadamente 1,3 milhões de pessoas por ano, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS). E o custo anual estimado, associado aos erros de medicação, pode chegar a US$ 42 bilhões,(OMS)”, alertou o médico Victor Grabois, Presidente do 1º Congresso da Sociedade Brasileira para a Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente.

Dr. Grabois explica que pesquisas realizadas estimam que cerca de 234 milhões de cirurgias são realizadas mundialmente, sendo uma operação a cada 25 pessoas/ano. “Pesquisas anteriores apontam que sete milhões de pacientes sofreram complicações após a cirurgia, sendo que 50% destas poderiam ser evitadas”.

Ele ressalta que, a partir deste quadro, é possível concluir que “o risco de complicações cirúrgicas e eventos adversos são subnotificados em muitas partes do mundo. Estudos realizados em países industrializados têm mostrado uma taxa perioperatória de morte em cirurgia hospitalar de 0,4 a 0,8% e uma taxa de complicações graves de 3 a 17%. Estas taxas tendem a aumentar em países em desenvolvimento de acordo com a OMS”.

Dr. Grabois conta que “estudos realizados nos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia, publicados entre 1991 e 2006, apontaram para uma incidência de 9,2% de pacientes com eventos adversos em hospitais, com uma mediana de preventabilidade de 43,5%. Majoritariamente, os eventos mostraram-se relacionados ao cuidado cirúrgico (39,6%) ou medicamentoso (15,1%).


Dr. Victor Grabois

Na América Latina, a segurança do paciente também é estudada. Grabois diz que “estimativas baseadas em 58 hospitais na Argentina, Colômbia, Costa Rica, México e Peru indicaram uma prevalência de 10,5% de pacientes com pelo menos um evento adverso. Cerca de 59,0% dos eventos adversos foram considerados preveníveis. No conjunto, 37,1% foram infecções adquiridas no hospital e 28,5% foram relacionados a procedimentos cirúrgicos”.

Ele aborda ainda, outros estudos que apontam: “centrando-se em pacientes cirúrgicos, uma revisão sistemática de 14 estudos publicados em língua inglesa, incorporando, no conjunto, 16.424 pacientes, identificou a ocorrência de eventos adversos e de eventos adversos preveníveis em, respectivamente, 14,4% e 5,2% dos pacientes. Estimativas apontaram para consequências fatais, graves, moderadas e leves em 3,6%, 10,4%, 34,2% e 52,5% dos eventos adversos registrados, sendo mais frequentes erros no gerenciamento não-operatório do que propriamente na técnica cirúrgica”.

No Brasil o tema também tem se revelado como fundamental na ordem do dia: “ estudo realizado em hospitais universitários no Rio de Janeiro revelou incidência de eventos adversos de 7,6%. Cerca de 35% do total de eventos adversos eram cirúrgicos. O mesmo estudo também indicou a ocorrência de eventos adversos em 5,9% dos pacientes cirúrgicos. Entre estes pacientes, associados, no geral, a uma taxa de mortalidade de 17,1%, 65,8% foram acometidos por eventos adversos evitáveis, com taxa de mortalidade de 17,9%. Do conjunto de eventos adversos cirúrgicos, cerca de 60,0% foram observados em situações de baixa complexidade, onde o risco envolvido era considerado baixo. Além dos danos ocorridos, esses eventos adversos acarretam um grave prejuízo financeiro”.


Plateia no I Congresso da SOBRASP

* As pesquisas citadas e seus autores foram fornecidos pelo Dr. Victor Grabois e são acessíveis em websites de buscas acadêmicas.


Victor Grabois presidente da SOBRASP durante o Congresso da Sociedade Brasileira para a Qualidade do Cuidado e Seguranca do Paciente

Labornews: Qual é o objetivo da SOBRASP?
Victor Grabois: A SOBRASP, Sociedade Brasileira para a Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente surgiu de uma idéia - talvez a idéia seja mais importante - que é a segurança do paciente como direito ao cuidado seguro, e de que isso dependeria de uma grande mobilização dos profissionais, dos gestores, e principalmente da população usuária do sistema de saúde, em torno dessa proposta. A idéia da SOBRASP é a de mobilizar no sentido de que possamos reduzir os riscos na prestação de cuidados de saúde, reduzir os danos, e que as pessoas possam realizar os seus procedimentos, consultas e exames, sem o receio e sem a preocupação tão importante quanto às ocorrências, por exemplo, de erros de diagnósticos, de quedas, lesões, e de infecções associadas ao cuidado, essas que são grande parte dos eventos adversos que ocorrem no cuidado de saúde.

Labornews: Quem participou do primeiro congresso da SOBRASP?
Victor Grabois: O Congresso da SOBRASP aconteceu no Rio de Janeiro nos dias 5,6 e 7 de junho passado, e os principais segmentos representados no evento foram as universidades públicas, os hospitais de excelência, secretarias estaduais e municipais de saúde, o setor de medicina diagnóstica (esteve bem representado também) e de forma geral, muitos médicos, farmacêuticos, enfermeiros, biólogos. E ainda, muito interessante comentar, tivemos advogados, economistas, e engenheiros clínicos. Enfim, um público bastante diversificado e que de alguma maneira, corresponde aos nossos ideais e nossos objetivos, de agregarmos à SOBRASP, não apenas profissionais de saúde, mas todos aqueles interessados na idéia da segurança do paciente.


Dr Vitor Grabois e palestrantes no I Congresso da SOBRASP

Labornews: E quais os objetivos do Congresso?
Victor Grabois: Os grandes objetivos do congresso foram, em primeiro lugar, trazer a pauta de que a segurança do paciente precisa se tornar uma política pública, com recursos definidos, estrutura no Ministério da Saúde, seguindo todo um caminho de desenvolvimento de outras políticas públicas de saúde que deram certo. Dois: discutir quais são as principais estratégias e inovações que podem tornar o cuidado de saúde seguro, e também ao mesmo tempo centrado no paciente. Também discutimos bastante a necessidade da modificação da cultura de segurança do paciente, para que possamos aprender com os erros, aprender com ocorrência de eventos adversos, sair de uma cultura punitiva que repreende as pessoas envolvidas em situações absolutamente não intencionais. Por fim, e não menos importante, avançarmos na discussão de como desenvolver a educação e pesquisa em segurança do paciente. E claro, outro objetivo foi o de reunir profissionais de todo o país, e de todos os segmentos. E nós conseguimos isso, pois tivemos mais de mil participantes de praticamente todos os estados do Brasil, profissionais do setor público, do setor privado, da Academia, dos serviços etc. De fato ,então, foi um grande momento de congraçamento, de discussão científica, de definirmos novas abordagens para a segurança do paciente.

 


Foto mesa do I Congresso SOBRASP

Labornews: Quais os planos da SOBRASP para o futuro?
Victor Grabois: Nossas expectativas a partir do Congresso é enraizar a SOBRASP em todo o país, criar as sessões estaduais da entidade, iniciar um programa importante de educação em torno da segurança do paciente, estabelecer um conjunto de parcerias com sociedades de especialidades médicas, parcerias na área da enfermagem, fisioterapia, medicina diagnóstica e outras. Acreditamos muito que o trabalho em parceria, que fazer interface com conselhos de exercício profissional, tudo isso, pode ser muito significativo. Pretendemos ainda mexer um pouco nas discussões sobre o currículo nas faculdades para podermos abordar com mais força a segurança do paciente, para que possamos junto aos conselhos de exercício profissional desenvolvermos qual a melhor abordagem frente aos eventos adversos que ocorrem. Existe ainda a relação com a indústria, repensar um pouco que muitos produtos fabricados ainda têm questões importantes em termos de segurança do paciente, podem ser modificados, podem ficar mais adequados. Então, nossa grande expectativa é a de aumentar a consciência sobre o problema que é a segurança do paciente, formar pessoas para atuarem nessa área, e ao mesmo tempo, fazer um engajamento da sociedade civil, de todos interessados, dos stake holders, da população, para que a gente possa pensar num universo de tempo não tão longínquo, que o nosso país possa se caracterizar, dentre outras coisas,ao oferecer um cuidado de saúde mais seguro.