A inserção do Brasil nas cadeias internacionais de abastecimento. Novo normal?


Com o passar dos meses sob a égide da pandemia, ouvimos mais e mais sobre o conceito de novo normal. Percepções, insights, materialização acelerada de algumas tendências que vinham se estabelecendo já há alguns anos, rupturas bruscas, aceleração de mudanças, desejos pessoais e interesses setoriais, todos esses elementos, além de outros, vêm dando a essa noção de novo normal uma perspectiva de pré-realidade. 

 

Em diversos aspectos, essa perspectiva é bemvinda, mas ao mesmo tempo incerta e assustadora para muitos. E isso não é novo normal. Não é novo e se repete ciclicamente ao longo da história. É, na verdade, o nosso normal.

 

De todas as situações vividas até o momento, com suas consequentes lições, ficou evidente e tangível a necessidade de uma nova abordagem para as cadeias internacionais de abastecimento. E me valho do setor da Saúde, fundamental em todo o mundo no processo de combate a pandemia, para basear o racional em torno dessa abordagem. 

 

Vimos de forma inequívoca que há concentração crítica no mercado global de produtos médicos (dispositivos, equipamentos e medicamentos). Segundo dados da WTO de abril passado, apenas três países concentrem 35% do fornecimento, enquanto os 10 maiores exportadores representam aproximadamente 75% do volume global. Situação ainda mais visível em um item básico de proteção, como as máscaras, em que um só país concentrava 25% do movimento mundial.

 

Expectativas a parte, o que vivemos foi uma espiral protetiva gerada pela aceleração exponencial da demanda com a consequente elevação momentânea de preços, deterioração da malha logística em função de fechamento de fronteiras, suspensão de voos e a proibição de exportação de itens essenciais, decisão aplicada por cerca de 100 países. Brasil inclusive.

 

Um cenário de crise, em que a oportunidade para o país se dá pela inserção na complexa e multivariada rede mundial de abastecimento.

 

Voltando a concentração dos exportadores mundiais, duas características se manifestam: Primeiro, todos tem predominância em suas áreas geográficas – alguns até mesmo mundialmente –, com expressiva quantidade de acordos bi e multilaterais de comércio. Segundo ponto, todos são detentores de altos índices de tecnologia e industrialização e desfrutam de posição relevante no cenário global em inovação.

 

Quando analisamos os gráficos abaixo, comparando o fluxo internacional de negócios entre 2000 e 2017, o crescimento expressivo de alguns países e o aumento da intensidade das conexões comerciais, uma leitura possível é que o Brasil vivenciou até aquela data uma certa expansão nas conexões, mas mantendo sua importância relativa. No gráfico, isso está representado pela dimensão da esfera.

 

Se considerarmos que o Brasil não figura em posição de destaque no ranking internacional de inovação, o resultado não poderia ser outro a não ser um certo grau de estagnação. Outros fatores agravam isso: não temos uma pauta de exportação robusta para industrializados e, ao mesmo tempo, temos que expandir a geografia, a quantidade e o valor de nossos acordos comerciais.

 

Assim, entendo que nosso momento póspandemia deveria ser a busca pela inserção positiva do País naquelas que virão a ser as novas cadeias de abastecimento global, vitais para a retomada do crescimento. Por algumas razões:

 

• Temos que gerar emprego e renda para muitos milhões de brasileiros, que desde 2014 sofrem o efeito de crises contínuas;

• Temos que nos inserir definitivamente em um mundo interconectado, digital, com alta intensidade de inovação e interdependência comercial, de forma a gerir riscos de maneira adequada e com previsibilidade condizente com a importância de nosso País.

• Temos tamanho, população, talentos, mecanismos e a oportunidade para fazê-lo.

 

Qual armadilha deveríamos evitar, para que de forma competitiva respondamos a essas oportunidades? Sem dúvida, é a armadilha do Tecno Nacionalismo. Como colocado pela WTO: “Tecno Nacionalismo: Políticas que incentivam empresas de capital doméstico a tornarem-se tecnologicamente independentes não necessariamente entregam os resultados esperados em termos de evolução”.

 

Uma das alternativas sobre a qual poderíamos trabalhar se sustenta em base a três dimensões:

 

• Políticas industriais não discriminatórias em termos de origem de capital, para o setor de Saúde, lastreada em convergência regulatória, com ampliação de acordos comerciais bi ou multilaterais; segurança jurídica para investimentos e operação de longo prazo; e uma gama variada de modelos de financiamento.

 

• Inovação embasada na integração com ecossistemas globais, levando em consideração modelos de parcerias sustentáveis e transferência de tecnologia, buscando adequar modelo de negócio versus tecnologias disponíveis.

 

• Educação elevada à enésima potência com foco no ensino básico público de qualidade e formação técnica, tanto no nível médio como superior, dando assim oportunidade de formação de pessoal para a demanda hoje existente. E, mais do que isso, para as novas profissões que serão desenvolvidas para atender um mercado aceleradamente tecnológico.

 

Mas temos que começar de imediato, com precisão e assertividade, evitando as simplificações, porque, sem dúvida, tempo é um fator crítico de sucesso e temos que considerar que um período longo seria necessário para viabilizar esse modelo. Seria muito bom viver em um normal em que as assimetrias e desigualdades fossem reduzidas, onde pudéssemos aspirar a ser mais como País e onde um projeto de futuro pudesse, enfim, ser tangibilizado.

 

 

 

 

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