Infecções fúngicas na pandemia


É importante considerar as infecções fúngicas (micoses) no contexto da COVID-19, porque os sintomas de algumas doenças fúngicas podem ser semelhantes aos da doença causada pelo novo coronavírus, incluindo febre, tosse e falta de ar. Portanto, é necessário que testes laboratoriais possam diferenciar infecção fúngica de COVID-19 (https://www.cdc.gov/fungal/awareness-week. html).

Nos últimos anos, as micoses foram responsáveis por mais de 1,5 milhão de óbitos no mundo todo. Houve um aumento, considerável, principalmente em pacientes imunocomprometidos ou hospitalizados. Dentre os grupos de indivíduos mais afetados por essas infecções, merecem destaque os pacientes submetidos a transplantes de órgãos sólidos (TOS) ou de células-tronco hematopoiéticas (TCTH), grandes cirurgias (principalmente gastrointestinal), quimioterapias, antibioticoterapias de amplo espectro, aidéticos, diabéticos e portadores de outras doenças associadas à imunossupressão. Outro aspecto a ser considerado neste aumento dramático de infecções fúngicas é o envelhecimento da população, tendo em vista que pacientes com idade superior a 60 anos apresentam maior chance de desenvolver doenças crônicas não transmissíveis, incluindo o câncer.

As micoses causam uma ampla diversidade de síndromes clínicas, tornando a hipótese de etiologia fúngica suspeita pertinente em qualquer quadro infeccioso relacionado a pacientes imunodeprimidos, sejam quadros de evolução rápida ou insidiosa e independente do órgão acometido pelo processo mórbido. São infecções, muitas vezes, diagnosticadas tardiamente e associadas à alta taxa de letalidade, como já mencionado acima. Sob o ponto de vista clínico, as micoses são classificadas em superficiais, oportunísticas ou endêmicas.

Lamentavelmente, as infecções fúngicas fazem parte do rol de doenças negligenciadas pelas autoridades de saúde pública. 

Em função do aumento considerável dessas doenças, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) criou uma campanha anual, para alertar os profissionais de saúde sobre a importância das infecções que ocorrem em decorrência de fungos (https://www.cdc.gov/ fungal/awareness-week.html). Segundo o CDC, a dificuldade no diagnóstico de algumas dessas micoses pode levar a um aumento na gravidade delas ou até ao óbito. Portanto, a conscientização é uma das formas mais importantes para melhorar o diagnóstico precoce e reduzir atrasos no tratamento.

Classicamente, o diagnóstico das micoses superficiais ou invasivas é realizado pelos métodos convencionais (exame microscópico direto, cultura e histopatológico) e sorológicos, porém eles, apesar do baixo custo, podem apresentar baixa sensibilidade e alguns deles (cultura) podem levar alguns dias ou até semanas para ficarem prontos, vale ressaltar que Pneumocystis jiroveci, por exemplo, não cresce em cultura. Já os ensaios a partir da biologia molecular (PCR, Nested-PCR, PCR em Tempo Real e Sequenciamento do DNA) são os que apresentam maior sensibilidade e especificidade, acurácia, além de rapidez, fatores considerados fundamentais para estabelecer um tratamento mais precoce e adequado.

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