Não é só tristeza

A confusão de diagnóstico entre uma depressão patológica e uma tristeza natural diante da vida pode adiar a descoberta de um problema ainda maior no caso de idosos. O desequilíbrio emocional pode ser o primeiro sintoma do Mal de Alzheimer


Prof. Vitor Tumas: novos exames são fundamentais porque doenças degenerativas podem ter diferentes origens

Quando as pessoas idosas começam a se esquecer do que acabou de acontecer, as tais memórias recentes, diferentemente do que muitos imaginam este não é o primeiro sinal do Alzheimer. De fato é o estágio avançado da doença, indício de que a morte neuronal já vinha ocorrendo há tempos. Diferentes pesquisas apontam que a degeneração pode ter começado muitos anos antes.

Esta foi uma das conclusões dos pesquisadores liderados pela professora Lea Tenenholz Grinberg, patologista da Faculdade de Medicina da USP de São Paulo (FMUSP). Na investigação coordenada por ela, equipes se debruçaram sobre as amostras do chamado “banco de cérebros” do Projeto de Envelhecimento Cerebral da USP (na verdade são doados os encéfalos, que compreendem o cérebro, o cerebelo e o tronco encefálico). No Biobanco estão armazenados encéfalos de pessoas autopsiadas pelo Serviço de Verificação de Óbitos da capital (SVO), um dos maiores bancos de cérebros para estudos no mundo. Milhares de amostras de gente que morreu de outras causas, 60% deles com mais de 50 anos. A partir do questionário respondido pela família que fez a doação, foram rastreados sintomas de demência que não haviam sido diagnosticados em vida.

Um dos primeiros achados da pesquisa no banco de encéfalos, dez anos atrás, foi a constatação de que o Mal de Alzheimer teria seu início não no córtex cerebral, como se acreditava, e sim no tronco encefálico, que liga a medula espinhal ao restante da estrutura. Na autopsia das amostras foram encontradas lesões neurológicas condizentes com Alzheimer em uma parte específica do tronco cerebral, chamada núcleo dorsal de rafe, no mesencéfalo, na altura do pescoço.

Reportagem publicada na Revista Fapesp mostra como a descoberta dos pesquisadores jogou luz sobre as alterações orgânicas que antecedem a perda de memória. O tronco encefálico liga a medula espinhal ao cérebro e apesar de possuir apenas 1% dos 86 bilhões de neurônios do encéfalo, ele abriga “pequenas estruturas que desempenham funções fundamentais para a vida. Elas participam do controle da respiração, da fome, dos batimentos cardíacos, da pressão sanguínea e da temperatura corporal, além da regulação dos ciclos de sono e vigília. Também se conectam a regiões do cérebro que regulam o humor, a ansiedade e a formação e recuperação da memória”.


Imagem: ASCOM-FMUSP
USP mantém um dos maiores bancos de cérebros para pesquisas do mundo

Depois de analisarem 455 encéfalos de pessoas entre 58 e 82 anos sem diagnóstico de demência foi constatado que já havia sinais da morte de neurônios. Em trabalho posterior, nos questionários respondidos pelos familiares destes indivíduos, ficou evidente que parte deles apresentava manifestações clínicas de desequilíbrio emocional, como acessos de raiva incompreensíveis, depressão e ainda alterações de sono e de apetite. Nesta região foram encontrados emaranhados neurofibrilares da proteína tau, além da existência de placas da proteína beta-amiloide, ambas típicas de Alzheimer.

TERAPIAS CONTRA A DEPRESSÃO

Profissionais da saúde mental acreditavam que ações para melhorar o bem estar geral do idoso, como atividades lúdicas, recreativas e que rompam o isolamento social poderiam afastá-los da depressão e assim prevenir o Mal de Alzheimer. As mais recentes descobertas, no entanto, podem mudar esta concepção – a alteração psiquiátrica pode ser um sintoma inicial da doença, e terapeutas, cuidadores e familiares precisam estar atentos para protegê-los. As pesquisas realizadas na USP apontaram que a ocorrência da ansiedade e as oscilações de apetite e sono é três vezes mais alta em idosos com Alzheimer. No caso da depressão ela é quatro vezes maior e a agitação seis vezes maior em comparação com idosos saudáveis. Estas descobertas animaram pesquisadores porque permitirá, no futuro, o desenvolvimento de drogas de combate aos sintomas do Alzheimer antes que eles sejam irreversíveis. Os estudos atuais só são feitos em quadros avançados da doença e não têm alcançado resultados promissores. Por outro lado, a descoberta dos transtornos psiquiátricos ligados ao Alzheimer, sem relação com condições ambientais e sociais, pode auxiliar no encaminhamento de novas terapias, mas também demandará novos estudos para avaliar se os antidepressivos conhecidos agem da mesma forma em tecidos com lesões degenerativas, como é o caso. Alguns especialistas acreditam que se o diagnóstico pudesse ser antecipado em dez anos, antes de uma perda maior de memória e da capacidade cognitiva, muitos idosos portadores do Alzheimer poderão até vir a morrer por outras razões e não da doença.

AVANÇOS

No geral, os focos principais de pesquisas em laboratórios relacionadas a doenças degenerativas é justamente travar esta batalha contra o tempo, antecipar o diagnóstico mais precoce para que as terapias possibilitem a qualidade de vida do paciente e possam abrir portas para o desenvolvimento de novas drogas antes que a morte neuronal seja incapacitante.

Em maio a Unicamp anunciou os estudos de uma ferramenta que abrevia o tempo de espera para confirmação do diagnóstico. Hoje a análise morfológica de perda de massa do cérebro pode tardar até 20 horas. Guilherme Adriano Folego, pesquisador do Instituto de Computação da Unicamp, conseguiu desenvolver um método que dá a resposta em apenas 15 minutos, mesmo que as lesões estejam ainda em estágio intermediário.

O professor Vitor Tumas, neurologista da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, ressalta que nem sempre o diagnóstico é simples porque existem outras causas importantes de demência. “A segunda causa de demência mais comum é a demência de origem vascular. Há outras causas de doenças neurodegenerativas e outras causas não neurológicas que também podem levar à demência. E a mista, vascular com Alzheimer, também é frequente. Por isso é importante investigar os aspectos clínicos e realizar exames que podem confirmar o diagnóstico. O exame mais usado de neuroimagem é a ressonância magnética do cérebro, e há ainda o exame do líquor cefalorraquidiano, onde se encontra a redução da proteína beta-amiloide”.

Na Universidade Federal de São Carlos o objetivo é aperfeiçoar um exame de sangue de baixo custo, ainda em estudo, para o diagnóstico de Alzheimer. Uma pequena quantidade de sangue, de indivíduos portadores e de pessoas saudáveis, recebeu partículas magnéticas, capturadas depois por um sensor com imã, descartável. A concentração da proteína ADAM10, que apresenta alterações com a evolução da doença, é então analisada na amostra. Segundo os pesquisadores, foi possível rastrear alterações mesmo em casos mais recentes. A ideia é monitorar a presença do biomarcador para identificar o estágio da patologia.

São promessas que podem demorar até uma década para estar acessíveis em clínicas e hospitais, mas se tiverem sucesso o retorno é inestimável, já que darão esperanças de novos tratamentos a estas pessoas, antes que tenham suas memórias apagadas para sempre.

Texto: Regina Prado