Novos casos de Aids entre os mais jovens preocupam autoridades


Texto: Regina Prado | Foto: divulgação Wama Diagnóstica

No Dezembro Vermelho, mês de conscientização global de prevenção à Aids, o Labornews preparou uma entrevista especial que mostra o panorama atual da epidemia no país e como a evolução dos testes clínicos se tornou uma ferramenta essencial no controle do surgimento de novos casos.

O doutor Wagner Maricondi, diretor presidente da WAMA Diagnóstica e Diretor Médico do Laboratório Médico Dr. Maricondi, ambos com sede em São Carlos, interior de São Paulo, nos explica onde ainda persistem lacunas para evitar novos contágios. 

Labornews – Em relação à Aids, um dos grandes problemas no país é o número de pessoas que não sabem serem portadoras de HIV. O Ministério da Saúde estima que hoje sejam mais de 135 mil brasileiros. Desde o surgimento da epidemia, qual foi a evolução dos testes para a detecção do vírus?

Maricondi - Desde o reconhecimento do surgimento da AIDS pelo CDC dos Estados Unidos em 1981, o diagnóstico precoce da infecção passou a ser perseguido, uma vez que os benefícios do tratamento precoce são bem estabelecidos. O primeiro teste diagnóstico surgiu em 1985, dito de primeira geração, era um ELISA indireto onde os anticorpos específicos eram detectados por um conjugado anti-IgG humano. Eles tinham ampla janela de soroconversão, de 3 a 4 semanas. Os de segunda geração surgiram em 1987, os quais tinham também o formato indireto, mas utilizavam antígenos recombinantes ou peptídeos sintéticos de proteínas do HIV, eram mais sensíveis e específicos que os de primeira geração, e tinham janela de soroconversão em torno de 30 dias. Os de terceira geração surgiram em 1994 e eram tipo “sandwich”, os quais usavam antígenos recombinantes ou peptídeos sintéticos tanto na fase sólida quanto no conjugado. A possibilidade de detectar anticorpos IgM junto com IgG tornou esse ensaio mais sensível do que os de gerações anteriores, além do que a janela de soroconversão foi reduzida para 22 a 25 dias. O ELISA de quarta geração trouxe a possibilidade de detecção de antígeno e anticorpo. A identificação do antígeno p24 e de anticorpos específicos relacionados as proteínas virais gp41 e gp120/160 (HIV-1) e gp36 (HIV-2), reduziram a janela de soroconversão para em torno de 15 dias. Dentro desse conceito, há as derivações do ELISA, os quais usam outros marcadores, tais como a biotina (MEIA), rutênio (Eletroquimioluminescência), biotina e estreptavidina (ELFA) e peroxidase e luminol
(Quimioluminescência). Todos esses testes que pesquisam anticorpos, utilizados na triagem, estão sujeitos a resultados falso positivo e falso negativo. Assim, os testes confirmatórios devem ser sempre utilizados. Um dos testes confirmatórios bastante utilizado é o Western Blot, mas por detectarem anticorpos têm o inconveniente de apresentar resultados negativos ou inconclusivos nos casos de infecção recente, onde a concentração do antígeno p24 está elevada positivando os testes de quarta geração. Assim, os testes moleculares, como a PCR, são indicados nessas situações. A enorme preocupação com a janela de soroconversão está também relacionada às transfusões sanguíneas. Assim, o Ministério da Saúde determinou em 2004, através da portaria nº 112, a utilização do NAT em bancos de sangue. O NAT é uma Tecnologia de Amplificação do ácido nucléico viral que reduz a janela de soroconversão para aproximadamente 10 dias.

Lab - O que caracteriza a soroconversão nos testes diagnósticos para HIV?

Maricondi - Na infecção pelo HIV há a janela clínica, definida como o período que vai da aquisição do vírus ao aparecimento dos sinais e sintomas clínicos. Há também a janela diagnóstica, período entre a infecção e o surgimento de um marcador da infecção, o qual pode ser o RNA viral, o DNA proviral, antígeno ou a presença de novos casos de Aids entre os mais jovens preocupam autoridades anticorpos. A janela de soroconversão também é conhecida como janela imunológica ou janela sorológica, e compreende o período entre a infecção pelo HIV e o surgimento de anticorpos anti-HIV. Os testes diagnósticos evoluíram para reduzir a janela diagnóstica.

Lab - Como o teste Alerta, da WAMA Diagnóstica, funciona? Qualquer pessoa pode fazer o exame?

Maricondi - O teste Alerta da WAMA Diagnóstica é um autoteste, muito simples de ser realizado. Há uma ilustração no kit que mostra as etapas do procedimento, e qualquer pessoa pode realizar o teste. Aliás, esse é o grande objetivo dos testes rápidos, que, além da rapidez do resultado, permite sua realização por não profissionais da área de laboratório. A leitura é visual e há no kit um guia de intensidade da cor da banda teste para sua interpretação.

Lab - A WAMA trabalha com órgãos públicos no diagnóstico da população com testes rápidos para o vírus HIV?

Maricondi - A WAMA trabalha com alguns órgãos públicos municipais com testes rápidos para HIV e outros parâmetros infecciosos. Para campanhas do Ministério da Saúde, a WAMA já foi fornecedora de testes para HCV e Sífilis.

Lab - Qual a vantagem do teste rápido no controle de novos casos?

Maricondi - A grande vantagem dos testes rápidos no controle de novos casos é a descentralização para a identificação de portadores do HIV. As campanhas realizadas pelo Ministério da Saúde para identificação de portadores do HIV e de outras doenças infecciosas, tais como hepatites C e B e Sífilis, tem esse objetivo. Quando as ações são descentralizadas, ou seja, não se realiza somente os testes em laboratórios clínicos (onde o paciente é triado pelo médico para a realização do exame), mas sim as ações de busca do portador em todos os pontos de atendimento, os resultados são muito melhores. Vale salientar que essas campanhas não só identificam o portador como quebram as formas de transmissão da doença, colocando esses indivíduos em regime terapêutico que comprovadamente reduz a carga viral e, consequentemente, impede a transmissão do vírus e traz qualidade de vida aos portadores do HIV.

Lab - Nos últimos cinco anos, o número de mortes pela doença caiu 22,8%, de 12,5 mil em 2014 para 10,9 mil em 2018. Com o tratamento adequado, o vírus HIV fica indetectável, deixa de ser transmitido por relação sexual, e a pessoa pode não desenvolver a doença. Esta evidente evolução do tratamento tem levado os mais jovens a encarar a Aids como uma doença menos grave. O resultado desta visão equivocada, segundo especialistas, é o aumento da infecção entre os mais jovens (57,5% dos portadores têm entre 20 e 34 anos). Na sua opinião, como a política pública de saúde poderia reverter esta situação?

Maricondi - O Brasil já ocupou liderança nas definições de políticas internacionais de prevenção da AIDS, mas há consenso que vivemos um novo momento, e a preocupação passa a ser a de como manter o foco na prevenção através do uso do preservativo. Levantamentos tem mostrado que quase 95% das pessoas sabem que o preservativo é o meio de impedir a transmissão da doença nas relações sexuais, mas 45% não usaram em suas práticas sexuais nos últimos 12 meses. Sem dúvida, a eficiência das novas drogas terapêuticas tem contribuído com o relaxamento da população mais jovem e mais ativa sexualmente. Assim, em um encontro de especialistas ocorrido em junho deste ano, em Brasília, se estabeleceu a necessidade de intensificar as campanhas de prevenção a partir do aprendizado adquirido até agora. Diante desse quadro, a identificação sorológica do portador para posterior medidas terapêuticas de redução da carga viral, a retestagem em determinados grupos e populações em intervalos de tempo, o estabelecimento de novas estratégias, como o uso de tratamento profilático pré e pós-exposição de práticas sexuais de risco, e o enfrentamento das desigualdades sociais de gênero, convergem para uma prevenção de medidas combinadas que poderiam trazer um maior controle na transmissão da doença.

Lab - Nos últimos quatro anos, o Brasil registrou a queda de 13,6% na taxa de detecção de casos de Aids (37 mil novos casos em 2018), quase a metade correspondente a mulheres (48,4%). A maioria das gestantes diagnosticadas são muito jovens, com idades entre 20 e 24 anos. O senhor acha que os exames realizados hoje, principalmente no prénatal, poderiam controlar melhor a contaminação de mulheres e evitar a transmissão vertical para os bebês?

Maricondi - Preconiza-se na gestante a realização do teste para HIV na primeira consulta do pré-natal, a qual deveria ser idealmente no primeiro trimestre de gestação, e durante o terceiro trimestre de gestação. Aquelas que não tiveram acesso ao pré-natal devem realizar o teste no momento do parto. O Ministério da Saúde do Brasil disponibiliza um protocolo clínico de diretrizes terapêuticas para prevenção da transmissão vertical que deve ser seguido em gestantes soropositivas. A cidade de São Paulo recebeu do Ministério da Saúde, no mês passado, o certificado como município que eliminou a transmissão vertical do HIV, unindo-se à cidade de Curitiba e Umuarama, no Paraná. As três cidades brasileiras atenderam os critérios estabelecidos pela Organização PanAmericana de Saúde (OPAS) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), atingindo indicadores epidemiológicos nos últimos 3 anos de 0,3 crianças infectadas pelo HIV a cada 1.000 nascidos vivos por ano. Também é exigido que nos últimos 2 anos mais de 95% das gestantes tenham realizado pelo menos quatro consultas de pré-natal, e que tenham realizado pelo menos um teste de HIV. Daí conclui-se que programas de controle da transmissão vertical existem e são eficientes, basta a disposição das secretarias municipais de saúde para implantá-los.

Lab - O comportamento mais irresponsável dos jovens com relação à prevenção de contágio do HIV também está provocando um aumento importante na transmissão da sífilis (quase 30% no Brasil nos últimos anos). A WAMA Diagnóstica também trabalha na detecção da sífilis. Já se nota uma demanda maior pelo teste rápido diante desta nova realidade? Como este controle pode evitar um aumento de casos entre os mais jovens?

Maricondi - Se observarmos as taxas de detecção da sífilis de 2015 a 2018, vamos verificar que elas dobraram na sífilis adquirida e em gestantes, e cresceram 50% na sífilis congênita. Sem dúvida, os números são alarmantes e as políticas públicas para o HIV são estendidas a outras infecções sexualmente transmitidas. O protocolo de diretrizes terapêuticas para prevenção da transmissão vertical do HIV também se estende a sífilis e a outras doenças sexualmente transmissíveis, como hepatite C e B. As características das fases clínicas da sífilis, muitas vezes, dificulta a procura por diagnóstico e tratamento pois os sinais e sintomas desaparecem espontaneamente. Isto reforça a necessidade de aplicação de campanhas que
descentralizam a procura dos portadores da doença, como as que vem sendo realizadas pelo Ministério da Saúde do Brasil. Entretanto, o comportamento sexual do jovem deveria ser mais responsável, uma vez que ele tem consciência de que o uso do preservativo é o meio mais seguro de se evitar a transmissão de doenças através das relações sexuais. Campanhas que reforçam essa conscientização também deveriam ser aplicadas. A WAMA Diagnóstica fabrica o teste rápido para sífilis desde 2011 e temos observado um crescimento de demanda em torno de 30% nos últimos anos.