Fusão entre laboratórios modifica o perfil do mercado de análises clínicas

Os custos da área de saúde enfrentam aumentos acima dos índices de inflação em todos os países do mundo e representam um desafio particular para laboratórios de pequeno e médio portes. A fusão com grandes empresas tem sido um fenômeno crescente no nosso país.



Dr. Yussif Ali Mere Jr

Segundo dados do Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde (CNES), no Brasil existem 21.325 laboratórios de análises clínicas, sendo que o estado de São Paulo concentra perto de 10% deles (2.121). Nos últimos anos, a área de saúde presenciou um forte movimento de fusões e aquisições. Para o Dr. Yussif Ali Mere Jr, médico e presidente licenciado da FEHOESP, SINDHOSP e SINDRIBEIRÃO, os dados objetivos mostram que essa tendência é de crescimento ainda maior. Ele aponta que a consultoria KPMG registrou que “as fusões e aquisições entre hospitais e laboratórios de análises clínicas tiveram em 2017 o ano mais aquecido das últimas duas décadas. De 1997 até 2017 foram 210 negócios no setor. Desse total, 24%, ou 50 negociações, foram concretizadas só no ano passado, e 15% (31) em 2016, portanto, os últimos dois anos concentraram mais fusões e aquisições. Isso mostra que o mercado está aquecido e é atraente ao investidor nacional e estrangeiro”.

Diante desta movimentação, um dos desafios que precisa ser enfrentado por pequenos e médios laboratórios é a questão do investimento em novas tecnologias. Diante da possibilidade de investir ou se associar a laboratórios maiores, seus gestores terão que sempre levar em conta a estratégia que mais lhe convém e do perfil específico da empresa. Dr. Yussif exemplifica: “Um laboratório que atua, entre outras, nas áreas da hematologia, bioquímica, imunologia, endocrinologia, microbiologia, urinálise e parasitologia pode realizar mais de três mil diferentes tipos de exames. É claro que a automação foi e é importante aliada nesse processo, garantindo agilidade e confiabilidade. E a tendência desse segmento aponta para a necessidade de novas tecnologias que garantam diagnósticos ainda mais rápidos, baratos e precisos. O setor diagnóstico está em constante evolução e deve incorporar muitas inovações tecnológicas nos próximos anos, como os testes laboratoriais remotos para casos emergenciais ou acompanhamento de doentes crônicos. Portanto, é um mercado que exige um olhar constante para o futuro e uma gestão extremamente eficiente”.

Por outro lado, a reforma trabalhista, sancionada em julho do ano passado, também abriu a possibilidade de terceirizar a atividade-fim, o que poderia representar uma novidade na gestão de prestação de serviços dos laboratórios, mas que na prática traz um benefício maior nas relações já existentes. Para o Dr. Yussif, esta seria uma modernização das relações de trabalho e que pode significar uma maior segurança jurídica diante de parcerias já estabelecidas. “Mas é importante frisar que cada laboratório tem a sua realidade e precisa avaliar individualmente os riscos, custos e margens dessas relações. A receita que serve para um, às vezes é um desastre para outro. O maior risco que um laboratório corre atualmente é não ter uma gestão eficiente que monitore e avalie tudo isso. Em um mercado competitivo, sem gestão profissional a sustentabilidade da empresa inexiste. Trata-se somente de uma questão de tempo”, alerta.

Para ele, no entanto, diante do perfil diversificado do enorme mercado de laboratórios, todas estas novas regras e movimentação de mercado não podem ser etiquetadas como riscos ou benefícios. Qualquer generalização seria frágil neste momento. “Não é possível generalizar. Temos que lembrar que muitos laboratórios pequenos atuam em regiões com poucos ou nenhum concorrente, em nichos específicos de mercado, com pouca mão de obra e custo operacional relativamente baixo.”

Neste momento, também a possibilidade de melhoria da formação desta mão de obra poderia ser impulsionada pelo ensino à distância, com a recente ampliação de vagas e de cursos no país. Para Yussif este pode ser um ganho, com a ressalva de que nem todo conhecimento técnico pode ser ensinado à distância. Ele conta que “a FEHOESP é fundadora e mantenedora do Instituto de Ensino e Pesquisas da Área da Saúde, o IEPAS, que realiza cursos, workshops e treinamentos em todo o Estado de São Paulo, também para o setor laboratorial. Com o consumidor cada vez mais exigente, manter a qualidade dos serviços é primordial”.

Diante dos muitos desafios deste mercado dinâmico, as empresas ainda têm de enfrentar, na sua administração, o aumento dos custos na área de saúde, alavancados especialmente pelo envelhecimento acelerado da população, o que demanda mais prestação de serviços de saúde e ainda tratamentos prolongados devido às doenças crônicas. Mesmo diante da defasagem nos preços repassados pelo SUS, e ainda com a dificuldade da saúde suplementar em renegociar valores, às vezes congelados há anos, na opinião do presidente licenciado do SINDHOSP os laboratórios ainda representam um setor bastante competitivo: “Atrelados a esses desafios, os laboratórios ainda atuam em um mercado altamente competitivo e com consumidores cada vez mais exigentes. O grande desafio é encontrar o equilíbrio, manter os custos e a qualidade da operação controlados. E essa não é uma tarefa para amadores”.

Fusão de grandes redes com laboratórios tradicionais está mudando o perfil do setor


Dra. Maria do Carmo Favarin

Segundo pesquisa pela consultoria KPMG, nos últimos dois anos o número de fusões e aquisições entre hospitais e laboratórios no mercado de análises clínicas foi exponencial – cinquenta negociações aconteceram apenas no ano passado, um quarto das ocorridas nos últimos dez anos. Um dos grandes players deste mercado, em 2009 o Sabin decidiu apostar em um projeto ousado – levar seu serviço de análises clínicas, reconhecido pela excelência no atendimento, qualidade laboratorial e inovação tecnológica, para outras regiões do Brasil. Inicialmente, o Sabin expandiu seu atendimento para outros bairros do Distrito Federal e entorno, Barreiras (BA) e Anápolis (GO). Mas o grande passo aconteceu em 2012, com a assessoria da Fundação Dom Cabral, por meio da Parceria para o Crescimento Sustentável (PCS). Esse processo de expansão nacional iniciou com a ampliação da operação em Brasília (DF) e expansão para Manaus (AM) e aquisições realizadas em Uberaba (MG), Palmas (TO), Salvador (BA) e Belém (PA). Em 2014, já sob o comando da CEO, o laboratório chegou a São José dos Campos (SP), Campo Grande (MS), Uberlândia (MG), Ribeirão Preto (SP), Londrina (PR), Boa Vista (RR), Campinas (SP), Franca (SP), Florianópolis (SC), Maringá (PR) e ampliou sua atuação nas cidades de Anápolis (GO), Uberaba (MG) e Salvador (BA). Atualmente o Grupo Sabin está presente no Distrito Federal e mais 11 estados. Com 4.600 colaboradores, possui hoje 255 unidades.

Uma destas fusões, em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, foi a do Laboratório Dr. Coutinho, fundado há mais de quarenta anos pelo professor da USP Vicente Coutinho. As condições em que se deu esta transição foi gradual, com o objetivo de herdar a clientela estabelecida e a carteira de clientes. “O princípio da empresa é estabelecer parceiras com laboratórios já consolidados, nunca se aventurar com um laboratório novo”, explica a hematologista Maria do Carmo Favarin, responsável pela gestão regional desde março deste ano. Formada em Bragança Paulista, com residência em transplante e hemoterapia na USP de Ribeirão Preto, ela explica que houve uma adaptação na estrutura existente para poder ampliar o número de exames oferecidos e criar novos postos de coleta. Hoje são três unidades de atendimento, incluindo a original, onde já funcionava o Laboratório Dr. Coutinho, um investimento da ordem de 3 milhões de reais.

Para ela, o fato de pertencer a uma rede maior facilita o dia a dia. Dos três mil exames mensais, 80% deles (hematologia, hormonal, microbiologia, parasito, imunoquímica) são analisados no Núcleo Técnico Operacional do Sabin em Ribeirão, 17%, mais específicos, são enviados para a matriz em Brasília (sorologia, hormônios e perfil de autoimunidade), e apenas 3%, principalmente genéticos, precisam ser terceirizados. Uma estrutura maior possibilita este leque de exames, ao mesmo tempo que o custo operacional baixa. “Hoje se pensarmos no custo de reagentes, por exemplo, para um laboratório menor ele pesa muito. Como o Sabin adquire em grandes quantidades, o custo unitário dos exames baixa.”

Em dois anos de fusão, a maior oferta de exames e estrutura também possibilitou a ampliação da carteira de convênios atendidos na região. “No mercado atual, um pequeno laboratório pode não ser competitivo. A necessidade de acreditações, certificações de qualidade, que têm muito peso no mercado hoje, também são onerosas”, exemplifica a hematologista.

Com relação ao SUS, somente as unidades incorporadas pelo Sabin que já atendiam permanecem. Em Ribeirão Preto, não há planos de oferecer os serviços no momento e em casos pontuais o Instituto Sabin, braço institucional que promove ações junto à comunidade, realiza os exames. “Fazemos ações sociais em creches, em lares de idosos e aí quando necessário coletamos exames, analisados por médicos parceiros nossos. Ou, ainda, quando um paciente tem um pedido pelo SUS não coberto pela rede pública, principalmente em casos terciários, oferecemos valores diferenciados.”

FUNDADORES PARTICIPAM DA GESTÃO

Segundo a médica, o processo de fusão pode ser levado a cabo de diferentes formas. “Há hoje no mercado muitos tipos de aquisições. Você pode mudar a bandeira, pode manter a bandeira, pode terceirizar. Em algumas empresas, são mantidos até o nome original. No Sabin o caminho é a padronização do atendimento, com foco na humanização, e adaptação dos processos para a implantação dos programas de acreditação, como o PALC e a ISO. O doutor Vicente Coutinho, além de sócio, exerce a função de gestor institucional e é o responsável técnico das unidades. Ele só não precisa mais participar do trabalho no dia a dia, mas o apoio dele é imprescindível tecnicamente. No laboratório, ele continua muito querido e respeitado.”

Em 2017, o laboratório passou pelo processo de migração de marca e as fachadas passaram a contar com a marca Sabin Medicina Diagnóstica. A maioria dos antigos funcionários foi mantida. De 28 funcionários e uma unidade, hoje são no total 48 nos três postos de atendimento. “Nós sabemos que a consolidação da marca é um passo muito importante depois da fusão e estamos em um momento de consolidação e apresentação dos diferenciais que o Sabin trouxe para Ribeirão Preto”.